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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

11
Jul20

Desconfinar ou reconfinar ou…?

João Miguel Almeida

O vírus SARS-CoV-2 trouxe com ele incertezas permanentes e verdades provisórias. A verdade de hoje é que a epidemia está a estabilizar em Lisboa, com Rt abaixo de 1 (ver aqui), e trata-se de uma verdade coerente com o reforço de medidas em finais de junho e início de julho.

A minha sensação, que me parece partilhada por muitos, é que devo fazer o que depende de mim para evitar a covid-19, mas há muito, demasiado, que não depende de mim.

As críticas ao governo partem de muitos lados e a crise de uma pandemia demonstra até ao absurdo que as ações individuais são indispensáveis, mas não bastam para lidar com uma situação como esta em que a ação do Estado é decisiva para garantir um mínimo de segurança às pessoas. No entanto, creio que a margem do governo é mais curta do que a maior parte das pessoas imagina.

Seria difícil o governo e o Presidente da República não terem decidido confinar a população portuguesa no início da pandemia. O modelo sueco não podia ser tomado à letra em Portugal. Em primeiro lugar, porque o modelo sueco partiu de pressupostos de uma realidade social diferente, em que as pessoas de mais idade convivem pouco com os mais jovens. O raciocínio foi: os jovens apanham o vírus e recuperam, os velhos vivem isolados dos jovens e estão protegidos. Foi esquecido que os velhos suecos a viver em lares podem estar isolados dos jovens da sua família, mas não o estão dos trabalhadores que lhes prestam assistência. Em segundo lugar, em Portugal já estava instalado o alarme social com um espetáculo mediático montado em volta de cenas de horror epidémico em Itália e Espanha. Se o governo português decidisse imitar a Suécia, haveria um «confinamento selvagem», com pessoas a fechar empresas, a despedir-se, a tirar os filhos da escola, e enfiavam-se todos em casa sem qualquer proteção legal ou apoio educativo.

Atualmente, quando o espetáculo de horror mediático se deslocou da saúde pública para a economia, também seria improvável reconfinar sem dar a impressão de cometer um suicídio económico, como parece que aconteceu na Argentina. Há medidas tomadas a nível nacional e local que são discutíveis e criticáveis. Por exemplo, não percebo por que é que, no combate à epidemia, se reduz o horário nos centros comerciais, favorecendo a formação de bichas frente à entrada e a concentração de pessoas no interior quando o alargamento dos horários é que evitaria as bichas e favoreceria a circulação mais à vontade no interior dos centros comerciais.

A «covida» é um nó górdio que ninguém, a começar ou a acabar no governo, ainda conseguiu desfazer com um só golpe. Toda a sociedade e todos os poderes, grandes e pequenos, públicos e privados, estão envolvidos na adaptação à «covida» e no combate por uma vida sem prefixos, num processo sem fim à vista.

05
Jul20

O vírus da mentira

João Miguel Almeida

É costume ser dito que na guerra a verdade é a primeira baixa. A verdade também está a ser dizimada pela epidemia de covid-19. A Grécia teria uma estranha imunidade à covid-19. Em Espanha, os números têm evoluído num sentido muito favorável ao turismo. Nos Estados Unidos e no Brasil os números são horríveis, mas o governo testa pouco, evitando que sejam ainda mais assustadores.

Nós por cá temos os números que temos, que estão a ser usados contra nós na guerra económica, em especial a guerra do turismo.

 É absurdo que o governo britânico tenha imposto quarentena obrigatória aos turistas ingleses que visitarem Portugal no regresso a Inglaterra, dado que a situação da pandemia em território inglês é muito pior do que em território português. Mas nem só os governos torneiam a verdade. A quarentena obrigatória não é aplicável à Escócia. O que acontecerá este verão é que muitos ingleses visitarão Edimburgo antes de visitarem Portugal. Haverá uma brutal descida de turismo inglês e uma explosão do turismo «escocês».

Esperemos que a saúde económica não seja mais flagelada do que a saúde física dos portugueses.

04
Jul20

Nem relaxe nem alarmismo

João Miguel Almeida

O stress causado pelos dias de confinamento, pelos dias de desconfinamento em que foi necessário gerir teletrabalho e escola online, pelo bombardeamento mediático acerca da covid-19, estão a levar os portugueses a atitudes extremas de negação ou de paranoia acerca da pandemia.

Não sou propriamente um adepto de que «no meio é que está a virtude», mas penso que, no estado atual da pandemia não é justificado nem o relaxe nem o alarmismo. Creio que o risco de eu morrer de covid-19 é baixo. Mesmo assim, há um risco razoável de, se for portador do vírus, contagiar pessoas que podem ficar gravemente doentes e até morrer. Ou, no caso de eu próprio adoecer, ficar com sequelas. São riscos suficientes para ter cuidado.

O alarmismo também é outra atitude injustificada e a telenovela em volta da covid-19 já me começa a cansar. Em Portugal morrem, em média, cerca de trezentas pessoas por dia. Sete mortes por covid-19, o número de hoje, corresponde a um pouco mais de dois por cento do total de mortes. Se fosse elaborada uma lista macabra com o top das maiores causas de morte em Portugal, a covid-19 não estaria certamente no topo da lista.

Hoje o cabeçalho dos jornais é que houve mais 413 casos confirmados. Mas estes «casos» são uma categoria ambígua que inclui quer pessoas realmente doentes quer simples portadores de vírus que, uma vez identificados, ficam sob vigilância e isolamento para evitar contágios. Hoje também foram confirmados mais 348 recuperados e esta categoria não é ambígua, são mais 348 pessoas que venceram, comprovadamente, a doença, e, logo, outros tantos passos em direção à imunidade de grupo.

Desconfinar é preciso – com cuidado mas sem alarmismos.

27
Jun20

À minha sobrinha que nasceu no ano da covid-19

João Miguel Almeida

Nasceste no ano da covid-19. Demorarás alguns anos a ter consciência deste facto e a perceber que, por causa dele, os teus primeiros dias de vida foram um pouco diferentes dos de outros bebés da tua família. Não houve visitas no hospital. Quando foste para casa, as visitas continuaram a ser raras. Ao fim de uma semana os teus tios e primo foram visitar-te, com a cara azulada por causa da máscara. O teu primo de oito anos pegou-te ao colo, sentado no sofá da sala, tenso, por estar a pegar num bebé tão pequeno, e com a fatídica máscara posta.

É um enigma para nós sabermos como verás estes dias que não podes recordar e o que poderás pensar se, eventualmente leres este texto. Sentirás curiosidade por saber pormenores acerca de um ano singular? Sentirás interesse por conhecer melhor como começou uma «nova normalidade»? Acharás cómicos os cuidados exagerados e os sentimentos alarmistas que as pessoas tinham em relação às andanças de um vírus não pior ou até menos mau do que muitos outros que vieram depois e foram combatidos de forma mais eficaz e descontraída?

Seja como for, o teu nascimento foi um acontecimento luminoso num ano cheio de sombras.

20
Jun20

Epidemias do século XIX nos versos de Cesário Verde

João Miguel Almeida

Nós

 

I

 

Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre

E a Cólera também andaram pela cidade,

Que esta população, com um terror de lebre,

Fugiu da capital como da tempestade.

 

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas,

(Até então nós só tivéramos sarampo)

Tanto nos viu crescer entre os montões de malvas

Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

 

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:

O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;

Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos

Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

 

Na parte mercantil, foco da epidemia

Um pânico! Nem um navio entrava a barra,

A alfândega parou, nenhuma loja abria,

E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

 

Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,

Rodavam sem cessar as seges dos enterros,

Que triste a sucessão dos armazéns fechados!

Como um domingo inglês na «city», que desterros!

 

 

Sem canalização, em muitos burgos ermos,

Secavam dejecções cobertas de mosqueiros.

E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,

Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

 

Uma iluminação a azeite de purgueira,

De noite, amarelava os prédio macilentos.

Barricas d’ alcatrão ardiam; e maneira

Que tinham tons d’ inferno noutros arruamentos.

 

Porém, lá fora, à solta exageradamente,

Enquanto acontecia essa calamidade,

Toda a vegetação, pletórica, potente,

Ganhava imenso com a enorme mortandade!

 

Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,

Numa opulenta fúria as novidades todas,

Como uma universal celebração de bodas,

Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

 

Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,

Triste d’ ouvir falar em órfãos e em viúvas,

E em permanência olhando o horizonte em brasa,

Não quis voltar senão depois de das grandes chuvas.

 

Ele, dum lado, via os filhos achacados,

Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!

E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,

E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!

 

E o campo desde então, segundo o que me lembro,

É todo o meu amor de todos estes anos!

Nós vamos para lá; somos provincianos,

Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!

 

 

14
Jun20

Centros comerciais sem problemas, festas populares sob suspeita

João Miguel Almeida

O dia em que muitos lisboetas procuram recuperar da ressaca da festa de S. António que lhes foi negada por causa da covid-19 é a véspera da abertura dos centros comerciais em Lisboa.

Sobre as razões das restrições aos festejos dos santos populares e o clima depressivo que causou já foram publicados alguns textos (ver aqui).

Causa-me alguma perplexidade o contraste entre temor e ao rigor com que foram tratadas as festas dos santos populares e a descontração relativa à abertura de centros comerciais em toda a parte, mas especialmente na capital.

As festas populares acontecem uma vez por ano e a maior parte das pessoas festejam ao ar livre. Os centros comerciais estão abertos todos os dias, são espaços fechados e os ares condicionados são bons propagadores de vírus. Acresce que algumas pessoas já costumavam «passar férias» nos centros comerciais e num contexto de lay-off e de desemprego esse número pode aumentar.

Até agora a gestão pelo governo do confinamento e do desconfinamento pelo governo, nas suas linhas gerais, tem seguido recomendações científicas e o bom senso. Mas neste caso não percebo por que é que não houve uma atitude mais descontraída em relação às festas dos santos populares e por que é que a abertura dos centros comerciais não é mais cautelosa.

Os santos nos ajudem – a ter bom senso.

06
Jun20

Os estragos sociais da covid-19

João Miguel Almeida

O senhor António (nome fictício) tem a quarta classe, vive com a mulher e a filha num bairro social e trabalha num talho.

A filha, de nove anos, no quarto ano, desde o início do confinamento que não sai de casa.

Num bairro social não há situações de meio termo – ou se faz a vida do bairro com todas as portas abertas ao vírus ou se fecham todas as portas.

Para o ano a criança devia entrar no quinto ano e sair da escola do bairro social. Este é um ano marcante. As aulas online exasperam a família. Os pais tentam ajudá-la e não conseguem. Têm ambos a quarta classe. Mesmo eu e a minha mulher, ambos doutorados, quando tentamos ajudar o nosso filho no terceiro ano somos surpreendidos por mudanças de classificação e de métodos. Mas conseguimos pesquisar e perceber como ajudá-lo.

A criança no bairro social tem de preencher Quiz e escreve as repostas todas certas, mas o sistema informático dá todas erradas porque ela introduziu em cada resposta uma palavra que não é reconhecida.

A covid-19 está a agravar todas as doenças sociais já existentes.

30
Mai20

Argumentos contra ideias zombies

João Miguel Almeida

O último livro de Paul Krugman tem como título Arguing With Zombie Ideas. Publicado no início do ano, foi escrito antes da crise provocada pelo SARS CoV-2.

No entanto, as últimas entrevistas e artigos do economista norte-americano apontam no sentido de que a negação do problema da atual pandemia é mais uma «ideia zombie», uma ideia que devia estar morta mas insiste em andar por aí a fazer estragos.

Entre as ideias «zombies» atacadas com argumentos no livro estão as de que os impostos sobre os ricos têm efeitos nefastos e as da negação climática.

Sobre a atual crise da covid-19, ainda escreveu relativamente pouco, mas do que escreveu há duas ideias a reter (infelizmente em textos que não se encontram em acesso aberto na internet): a de que a de que a prioridade no combate à crise da covid-19 deve ser evitar que morram pessoas; e a de que, sendo esta crise um misto de recessão e de desastre natural, a intervenção estatal devia focar-se em ajudar as pessoas a manter um nível de consumo adequado (ver aqui). Ao focar as ajudas na preservação de níveis consumo, os Estados também ajudam, indiretamente, as empresas e a conservação de empregos.

Convém acrescentar que haveria toda a vantagem em que o consumo fosse dirigido para produtos ecologicamente sustentáveis. E que os Estados também podiam, numa situação destas, contribuir para reorientar alguns consumos para produtos com menor impacto ambiental.

 

23
Mai20

Aviões em terra

João Miguel Almeida

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Tenho aproveitado uma parte das manhãs destes solarengos dias de desconfinamento para passear na Alta de Lisboa, com vista para o aeroporto da Portela. Nos meus passeios, é raro ver um avião a aterrar ou a levantar voo.

“Gaivotas em terra, tempestade no mar”, é um ditado português.

Os aviões em terra são uma imagem da tempestade interior em que vivemos, das limitações físicas impostas pela pandemia.

Fomos, literalmente, levados a pôr mais os “pés na terra”, outra expressão portuguesa, que apela a que prestemos mais atenção ao mundo que nos rodeia.

Mas ainda não é claro se a imagem dos aviões em terra nos abre as portas para um mundo mais consciente e responsável ou para uma tempestade de potencial destrutivo inimaginável.

É possível que, além de nos tornarmos capazes de dar uma resposta de saúde pública à altura da pandemia, nos tornemos mais consciente de que pandemias deste tipo são potenciadas pela destruição de habitats naturais. E que a prevenção de novos surtos de epidemias de vírus que passam de animais selvagens para seres humanos implica a preservação dos habitats naturais; a promoção de práticas económicas sustentáveis; a educação e novas oportunidades de trabalho às populações que vivem na fronteira com habitats naturais.

Também é possível que nos deixemos intoxicar por teorias da conspiração e pela guerra entre os Estados Unidos e a China. Além da “guerra” contra o SARS-CoV-2 há muitas outras guerras políticas e económicas em curso.

Ainda melhor do que termos mais aviões no ar é termos mais os pés na terra.

 

 

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