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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

29
Abr20

Jogando xadrez com a Morte

João Miguel Almeida

Max von Sydow morreu a 8 de março de 2020, em plena crise da covid-19. Era um dos atores preferidos de Ingmar Bergman e ficou famoso pelo papel que desempenhou em O Sétimo Selo em que joga xadrez com a Morte, num combate desigual e traiçoeiro em que teima em acreditar na possibilidade de uma vitória final (ver um trecho do filme aqui).

Mesmo que a Morte não tivesse feito xeque mate a Max von Sydow em plena ofensiva em tantos tabuleiros, associaria muitas frases que vou ouvindo às imagens e à ficção de O Sétimo Selo. Graças Freitas, a diretora-geral da Saúde, já qualificou o vírus SARS-CoV-2 como «muito inteligente». Do lado humano, não se pode dizer o mesmo. Há «idiotas úteis», como Donald Trump e Bolsonaro, que usam, ou não usam, o seu poder para fazer o jogo da Adversária.

Por vezes, ao ouvir o boletim informativo do Ministério da Saúde, tenho a impressão de estar a seguir as jogadas, os avanços e recuos, de uma partida perigosa. Os casos recuperados já são bem mais do que os óbitos: 1470 contra 973. Ao que é que equivale este sinal positivo? Dois ou três peões capturados? O indicador do contágio de uma epidemia, o Ro, depois de ter estabilizado durante várias semanas por volta de 0,9 este fim-de-semana alcançou o 1,04, como pode ver aqui.

É uma mudança simbólica: durante algumas semanas nem todos os infetados contagiavam outra pessoa e agora, em média, um infetado contagia, pelo menos, outra pessoa. Foi atravessada a fronteira entre a esperança na diminuição do contágio e o temor de que a epidemia recrudesça. Como traduzir estes indicadores em imagens de um jogo de xadrez? Após um período de extrema atenção ao jogo, durante o fim-de-semana da Páscoa, distraímo-nos e a Adversária capturou-nos um bispo ou uma torre.

Neste jogo perigoso, tão pessoal como coletivo, não podemos baixar a guarda.

 

 

27
Abr20

A covid-19 também nos contagia com novas discriminações

João Miguel Almeida

aqui escrevi sobre a visão distópica do jornalista norte-americano especializado em temas de saúde pública, Donald G. MacNeil. Ele adverte-nos que nos próximos dois anos podemos viver num mundo em que há dois tipos de pessoas, com estilos de vida completamente diferentes: os imunes e os não imunes.

Mas no discurso de alguns políticos, e não me estou a referir a políticos de estilo populista, mas, por exemplo, à senhora de estilo tecnocrático que atualmente é Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já desponta a legitimação de discriminações devido à idade. José Leitão analisa a questão num artigo do Público que pode ler aqui.

É triste e inquietante que numa Europa que se tem destacado pelo combate a discriminações de caráter racial, de género, de orientação sexual, se introduza agora uma nova categoria – o idoso – cujos direitos são limitados. Após o «envelhecimento ativo» teríamos o «envelhecimento confinado». As pessoas com mais de setenta anos são muito diferentes, têm diferentes condições de saúde, responsabilidades, disponibilidades e motivações também diferentes. A imposição de um estilo de vida a pessoas de mais de setenta anos caracterizado pelo isolamento e pela segregação, baseada na construção de uma categoria social, é tão absurda como a segregação de pessoas por razões de género ou de etnia.

 

Durante esta pandemia aprendi que o conceito de «imunidade de grupo» nasceu num contexto histórico muito diferente dos cenários que agora são defendidos para travar a covid-19. Agora pretende-se que os jovens sejam «largados» na rua, intencionalmente, para se infetarem, resistirem à epidemia e protegerem, com os seus anticorpos, a comunidade. O conceito começou a ser aplicado porque, durante uma epidemia de varíola, os médicos verificaram que as pessoas mais velhas, que já tinham sido involuntariamente infetadas no passado, protegiam os mais novos.

Na incerteza atual sabemos que os recuperados da covid-19 adquirem imunidade, tanto os novos como os velhos que se ficassem confinados não beneficiariam em nada a comunidade por serem imunes. Não sabemos por quanto tempo essa imunidade é válida, nem que sequelas deixa a covid-19.

Não permitamos que o nosso desconhecimento sobre a pandemia seja usado para reforçar preconceitos e criar novas descriminações.

25
Abr20

Cantar abril

João Miguel Almeida

Hoje, às 15 horas, fomos à janela cantar «Grândola Vila Morena». Vivemos no Lumiar e tínhamos dúvidas sobre se o ritual teria grande aceitação. Um par de minutos antes da hora marcada começámos a ouvir «E depois do adeus», de Paulo de Carvalho. E às 15 horas em ponto a voz de Zeca Afonso vibrava no ar. Havia pessoas nas varandas e às janelas, a cantar e algumas com cravos vermelhos nas mãos. Alguns prédios abriram-se à celebração. Outros permaneceram fechados, silenciosos. Após o «Grândola Vila Morena», ainda se ouviram mais algumas músicas do Zeca Afonso. Depois todos nós voltámos para dentro. A vida continua, como um rio em que corre água de abril, nutrindo a esperança de uns e a má-disposição de outros.

24
Abr20

Inventário de fobias em tempos assustadores

João Miguel Almeida

A covid-19 é uma ameaça potencialmente inspiradora de mais uma entrada na infinda lista de fobias humanas. Seguindo este link pode consultar um site com uma lista bastante completa das fobias mais raras e comuns. A sua leitura é fascinante. Podiam constituir as entradas de um Dicionário das Zonas mais Sombrias da Mente Humana, ser um ponto de partida para uma História Secreta da Humanidade.

Das várias fobias inventariadas, algumas podem relacionar-se com a covid-19 e as medidas tomadas para a combater: Bacillophobia (ou Microbiophobia)- medo de micróbios, Claustrophobia- medo de espaços fechados, Tapinophobia – medo de ser contagioso. Mas, a julgar pela situação concreta a que se referem algumas fobias, não me admirava que, mais tarde ou mais cedo, aparecesse a «covid-19phobia» ou qualquer termo equivalente.

Um dos livros publicitados no site intitula-se O Dom do Medo e outros Sinais de Sobrevivência que nos Protegem da Violência. Ao ler a lista de fobias, muitas delas dão-me vontade de rir, pelo que deduzo que o riso será outro «sinal de sobrevivência».

Segue-se a lista das fobias que considero mais fascinantes e os meus votos de que as pessoas que as sofrem, em compensação, não tenham a fobia da covid-19:

Allodoxaphobia- medo de opiniões.

Arithmophobia- medo de números.

Atelophobia- medo de imperfeição.

Caligynephobia- medo de mulheres bonitas.

Catoptrophobia- medo de espelhos.

Chaetophobia- medo de cabelo.

Chronomentrophobia- medo de relógios.

Cyclophobia- medo de bicicletas.

Didaskaleinophobia- medo de ir à escola.
Dikephobia- medo da justiça.

Euphobia- medo de ter boas notícias.

Hellenologophobia- medo de termos gregos e de terminologia científica complexa.

Hexakosioihexekontahexaphobia- medo do número 666.

Hippopotomonstrosesquipedaliophobia - medo de palavras longas.

Ithyphallophobia - medo de ver, pensar ou ter um pénis erecto.

Leukophobia- medo da cor branca.

Nephophobia- medo de nuvens.

Papaphobia- medo do Papa.

Paraskavedekatriaphobia- medo de sexta-feira 13.

Peladophobia- medo de carecas.

Phobophobia- medo de fobias.

Phronemophobia- medo de pensar.

Symmetrophobia- medo da simetria.

23
Abr20

O futuro a preto, branco…e rosa

João Miguel Almeida

Vale a pena ler – ou ouvir – esta entrevista a Donald G. MacNeil, um jornalista de ciência norte-americano que escreveu, em jornais e livros, sobre vários surtos epidémicos.

A visão que nos dá sobre o mundo que pode sair da pandemia da covid-19 é distópica a curto prazo e otimista a longo prazo.

O que pode estar na forja desta pandemia é um mundo em que todas as discriminações sociais que já existem – entre ricos e pobres, homens e mulheres, pessoas com idade a mais ou a menos, negros e brancos – são relativizadas por uma nova dicotomia: imunes e não imunes.

Os imunes têm trabalho. Os imunes visitam e abraçam parentes e amigos. Os imunes andam na rua e viajam entre países. Os não imunes estão muito mais limitados no acesso ao trabalho; vivem fechados em casa, com contactos sociais reduzidos.

Esta dicotomia pode conduzir a uma tentação muito perigosa, que talvez pareça absurda à maior parte dos portugueses, mas que parece muito verosímil nos Estados Unidos: as pessoas autoinfetarem-se para obterem imunidade. É claro que o processo pode correr mal e muita gente morrer por autoinfeção.

Donald G. MacNeil termina a sua entrevista com uma nota otimista: assim como os «loucos anos 20» se seguiram na Europa e nos Estados Unidos à I Grande Guerra e à pneumónica, assim como à II Guerra Mundial se seguiram trinta décadas de prosperidade articulada com um forte sentimento de solidariedade e responsabilidade social, à crise da covid-19 pode seguir-se um período de bem-estar geral.

Oxalá.

 

22
Abr20

Tirar o 25 de abril da Assembleia da República?

João Miguel Almeida

Não percebo o escândalo em torno das comemorações do 25 de abril na Assembleia da República. É claro que, no atual contexto, a forma mais adequada de concretizar essas comemorações gera dúvidas, mas não vejo como é que, num regime democrático, pode ser polémica a comemoração do acontecimento histórico genético da democracia portuguesa.

A controvérsia chegou mesmo aos antigos chefes de Estado da democracia portuguesa. Ramalho Eanes e Cavaco Silva, muitas vezes associados por causa do ar austero de ambos, tomaram atitudes diametralmente opostas, o que não surpreende. Ramalho Eanes disse que não concorda com a modalidade de comemorações escolhidas, mas vai na mesma, levado pela «responsabilidade institucional». Cavaco Silva não vai e não justificou a ausência, permitindo todas as especulações, incluindo a de que o antigo Presidente da República acha que a data não merece ser comemorada. Jorge Sampaio dá mais um exemplo de civismo, justificando a sua ausência com o facto de pertencer a um grupo de risco.

É absurdo considerar que todas as pessoas que estão contra as comemorações na Assembleia da República são fachos e algumas das pessoas que tomaram essa posição, como João Soares e Miguel Sousa Tavares, têm currículo no combate pela democracia. Mas não sejamos ingénuos a ponto de pensarmos que também não há filofascistas, ou fãs de Viktor Órban, entre os críticos das comemorações do 25 de abril na Assembleia da República.

Alguns críticos das comemorações do 25 de abril apontam como exemplo a atitude da Igreja Católica durante a Páscoa. Mas a Igreja Católica não deixou de encontrar maneiras de assinalar simbolicamente o essencial da Páscoa – nos locais próprios: o Papa Francisco apareceu sozinho na Praça de S. Pedro; alguns párocos celebraram a missa, transmitida online aos fiéis, perante bancos da igreja ou capela cheios com as imagens dos paroquianos.

Em vez das comemorações serem no interior da Assembleia da República podiam ser, por exemplo, ao ar livre frente à Assembleia da República, com os oradores a falar de um palanque ou da varanda, perante um público muito espaçado? Talvez.

O que não faz sentido é essa ideia de que os políticos se vão divertir nas comemorações enquanto o povo sofre enclausurado em casa. Os políticos vão trabalhar num feriado e correr mais riscos de contágio do que se ficassem em casa. Quem acha que os políticos vão à Assembleia da República arejar a pevide, repare na expressão facial de Ramalho Eanes.

21
Abr20

Luz no fundo de um túnel

João Miguel Almeida

Hoje, pela primeira vez em Portugal, o número de recuperados foi superior ao número de mortos por covid-19: são 917 recuperados e 762 mortos.

O número de mortos em Portugal tem sido relativamente baixo, o que parece dar razão aos críticos do confinamento e do espetáculo mediático montado em torno da pandemia. Mas o número de recuperados permanecia em níveis ínfimos. Um estudo recente mostra que o vírus SARS-CoV-2 se encontra em permanente mutação e é mais letal na Europa (ver aqui).

 

A lenta evolução dos recuperados em Portugal dá-nos uma imagem da incerteza que tem estado associada a esta pandemia e, face aos resultados mais recentes, razões concretas para ter esperança.

No campo económico verifica-se o inverso: uma catadupa de números inquietantes, quer em Portugal, quer a nível internacional. Mas já tivemos tempo para perceber as crises e recessões do passado, o que falhou e o preço que pagámos pelos erros cometidos.

A Grécia está a escapar a uma pandemia do covid-19 de dimensões brutais, mas escapará a uma repetição da tragédia económica?

O SARS CoV-2 está a expor as nossas vulnerabilidades e também mostrará quem possui capacidade para enfrentar uma crise desta dimensão.

18
Abr20

Dia dos Monumentos em quarentena

João Miguel Almeida

No ano em que uma pandemia anda nas ruas, e num Dia dos Monumentos em que os ditos não podem ser visitados presencialmente, temos acesso, via online, a mais de quinhentas atividades relacionadas com monumentos e museus. É só seguir o link abaixo:

http://w3.patrimoniocultural.pt/dims2020/digital/

Distanciamento físico dos monumentos, proximidade digital do nosso património. É mais uma ferramenta para reinventar os dias da quarentena.

17
Abr20

Uma crise na História de todas as pessoas que já viveram

João Miguel Almeida

Um dos livros que li nos tempos livres desta quarentena foi Uma Breve História de Todas as Pessoas que Já Viveram de Adam Rutherford. É uma narrativa da nossa História, os humanos, decifrada, nas linhas gerais, nos nossos genes. É claro que esta decifração não é possível sem juntar conhecimentos de biologia, História, arqueologia, geologia, etc. O autor, entronca nesta História genérica outras pequenas histórias, incluindo algumas histórias pessoais e do clube científico de que faz parte, os geneticistas.

Neste livro fui aprendendo algumas coisas, umas muito gerais, outras bastante concretas. Não me surpreendeu a ideia de que, do ponto de vista da genética, o racismo não faz qualquer sentido e que dois africanos negros têm mais diferenças entre eles do que aquelas que podem existir entre um branco e um negro. Também me pareceu que estava apenas a refrescar matéria já esquecida quando o autor refere que os europeus descendem de uma vaga migratória de Homo Sapiens que abandonou a África Oriental há apenas cem mil anos. Mas não creio não ter pensado antes que, se as raças não existem, há milhares de anos coexistiam três tipos de humanos: Homo Sapiens, homens de Neandertal e homens Denisova. Quando os Homo Sapiens provenientes de África chegaram à Europa encontraram e misturaram-se geneticamente com os homens de Neandertal. Daí todos os brancos europeus, entre os quais me incluo, terem como antepassados remotos tanto homens de Neandertal como Homo Sapiens enquanto a maior parte dos negros africanos descendem apenas de Homo Sapiens – com a exceção daqueles que, algures no passado se cruzaram geneticamente com europeus.

Mais concretamente, o livro, escrito em 2016, refere duas pandemias que mudaram a História europeia: a Yersinia pestis que abalou o império romano, já no seu crepúsculo, em 541, e que terá morto 25 milhões de pessoas em todo o império, contribuindo, a prazo, para a sua destruição; e a peste negra, entre 1348 e 1450. Ambas as pandemias chegaram à Europa, vindas da China. Se é possível estabelecer atualmente conexões entre globalização, tecnologia, relações entre a humanidade e a natureza, e a crise do covid-19, essas conexões já existiam na Antiguidade e na Idade Média: não só a peste chegou pelas rotas comerciais entre a China e a Europa, como ela é explicada «por força da agricultura, do comércio e da prosperidade: onde há cereais, há ratazanas, e onde há ratazanas há pulgas» (p. 118).

Vendo a crise do covid-19 numa perspetiva de longa duração, o que há de novo nesta história é, apesar de tudo, melhor: a medicina avançou vertiginosamente; temos a ciência, que nem existia, no sentido próprio do termo, nesses tempos passados. Quanto às conceções éticas, não creio que tenham evoluído muito. E alguns poderosos continuam a recorrer a bodes expiatórios para manter o seu domínio.

Uma Breve História de Todas as Pessoas que já Viveram - Livro - WOOK

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