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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

16
Abr20

Dos marcianos

João Miguel Almeida

A metáfora da «guerra» tem sido utilizada para descrever a atual luta contra a pandemia do covid-19. Outras vezes são as ideias e as imagens da ficção científica que são evocadas para interiorizar cenários e processos inusitados pela pandemia e especular sobre o que ainda pode acontecer.

Há um famoso livro de ficção científica que tem a palavra «guerra» no título e em que os vírus desempenham um papel decisivo – é A Guerra dos Mundos de H.G. Wells. O problema na comparação é que os mundos em guerra são os dos invasores marcianos e dos terrestres. E nesta ficção os vírus desempenham um papel benigno, do ponto de vista da humanidade, pois, quando os humanos estão prestes a ser dizimados pelos marcianos, estes sucumbem aos vírus terrestres contra os quais não têm imunidade.

H.G. Wells usava a ficção científica para criticar o mundo em que vivia. As ambições dominadoras dos marcianos podem ser lidas como uma crítica às manifestações mais patológicas do colonialismo europeu. A questão perturbadora é se algumas ideias e imagens da Guerra dos Mundos não podem ser transpostas para a atualidade. A atual «guerra dos mundos» é uma guerra interior à Terra, entre seres humanos alienados, empenhados em sugar a energia vital da casa comum, e os seres que deixaram se ser protegidos pelos equilíbrios naturais.

Face ao ecossistema terrestre e ao que tem sido o passado humano, todos nós estamos a tornar-nos marcianos, embora uns mais do que outros. Yuval Noah Harari escreveu em Homo Deus: «A era em que a humanidade ficava indefesa perante epidemias naturais provavelmente acabou. Mas podemos chegar a ter saudades desse tempo.»* Em Sillicon Valley alguns génios tecnológicos adotaram como lema «equality is out, immortality is in» e gastam milhões de dólares para descobrir os segredos da imortalidade humana. Michio Kaku no seu livro O Futuro da Mente visionou o tempo em que as pessoas, a partir de uma certa idade, transferiam as suas mentes para corpos pós-biológicos.

De súbito, mesmo os mais marcianos dos humanos são forçados a perceber que a humanidade ainda não é imune a pandemias; que uma sociedade como Singapura que não é um modelo de igualdade mas era um modelo de sucesso no combate à pandemia descobriu que o seu calcanhar de Aquiles eram os trabalhadores ilegais a viver em espaços exíguos e que não os ter tido em conta pode ter comprometido todo o seu programa de combate ao covid-19; que as nossas mentes podem explorar o ciberespaço, mas os nossos corpos continuam tão vulneráveis a vírus como os dos nossos antepassados romanos ou medievais.

A pandemia do covid-19 teve a sua origem num «wet market» (o «wet» é do sangue dos animais derramado frente aos clientes, ver aqui) da China, numa sociedade que foi buscar à Europa o modelo capitalista e o modelo teórico-político de combate ao capitalismo, articulando ambos de uma forma surpreendente.

Os vírus que desencadeiam o covid-19 passaram dos animais selvagens para os seus predadores – os seres humanos – atacando de tal modo toda a sua espécie, a economia, a política e a sociedade que estão a ter impacto no consumo e no ecossistema. Nos últimos tempos a palavra «antropoceno» tinha entrado na moda – o homem adquirira a capacidade de ser o fator principal na mudança do clima. No entanto, em poucas semanas, as alterações climáticas deixaram de ser o que eram antes da entrada em cena desses pequenos seres invisíveis que lançaram contra nós a epidemia do covid-19.

Esperemos que esta história acabe bem, como A Guerra dos Mundos de H.G. Wells. Mas para tal acontecer teremos de combater não só a expansão dos vírus, mas também a expansão desse outro inimigo interior, os marcianos.

                                                  

*tradução minha a partir da versão inglesa da edição Vintage da Penguin Random House, p. 16.

First edition of HG Wells The War of the Worlds doubles estimate ...

15
Abr20

Por quem os sinos dobram

João Miguel Almeida

A crise do covid-19 obriga-nos a escolher entre a riqueza e a saúde? Há quem pense que sim. E até há quem argumente que se a prioridade do governo for a criação de riqueza e não a defesa da vida dos seus cidadãos a qualquer custo veremos como estamos perante um falso dilema, pois só morrem os que já não eram saudáveis.

É o que defende Paul Frijters aqui. Fazendo uma análise custo-benefício entre o confinamento decretado pelo Estado e uma pandemia sem travões, Frijters conclui que tem menos custos e é mais benéfico para a economia e a riqueza da maioria encarar a pandemia com uma atitude de «laisser-faire, laisser passer».

Não conheço o autor, mas se for um economista liberal habituado a considerar todas as intervenções do Estado como maléficas, trata-se de uma posição coerente.

No entanto, nem tudo o que é coerente é bom.

Mesmo de um ponto de vista estritamente económico a análise tem falhas. É errado pensar que, se não houver confinamento a economia não tem um impacto negativo. A economia precisa de trabalhadores, empreendedores, consumidores. Se uma quantidade apreciável destes morre, a economia encolhe. O autor parte do pressuposto de que este impacto é relativamente reduzido pois a maior parte das vítimas mortais seriam idosos reformados, portanto, a população inativa.

Este pressuposto é discutível. Em primeiro lugar, porque a pandemia também faz vítimas mortais entre trabalhadores ativos. Mas ainda que a pandemia incidisse principalmente sobre idosos reformados, na Europa uma boa parte dos idosos reformados têm um poder de compra superior a muitos jovens trabalhadores em início de vida e portanto uma pandemia que dizimasse os idosos estaria a destruir a economia pelo lado da procura.

Nas diversas elucubrações económico-filosóficas de Peter Frijters há uma que me parece particularmente reveladora. É quando ele dá grande importância ao facto de, sendo a média de expectativa de vida em Itália de 83 anos, se a média de idade das vítimas do covid-19 for de 80 anos, só se perdem os três anos finais da vida da maior parte das vítimas do covid-19. E esses três anos octogenários são uma fraca razão para dar cabo da economia decretando o confinamento.

Um dos vícios deste raciocínio é considerar cada potencial vítima do covid-19 apenas como um indivíduo, desprovido de relações sociais ou familiares.

Mais uma vez nada sei sobre o autor, mas esta «visão do mundo» pressupõe uma avaliação da economia como uma interação entre indivíduos desprovidos de relações familiares ou inter-geracionais.

Na realidade social de Itália, de Espanha e de Portugal, um homem de oitenta e três anos pode, durante os últimos três anos da sua vida, pagar a licenciatura de enfermagem a um neto, ou neta. E mais um enfermeiro, ou uma enfermeira, numa situação de pandemia, pode ter um significativo impacto social e económico.

A economia não é só feita por empresas e Estados. Os indivíduos são uma abstração. A realidade concreta são pessoas tecidas por relações sociais, familiares e económicas. E as pessoas tanto se podem mobilizar para proteger a saúde de todos num determinado momento, como se podem mobilizar para relançar a economia num momento posterior.

Para não derrapar para uma análise dicotómica, com laivos de xenofobia, entre culturas «do Sul» e do «Norte», ou «latinas» e «anglo-saxónicas», transcrevo uma meditação de John Donne, poeta inglês (1572-1631):

«Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.»

14
Abr20

Início do terceiro período, pais à beira de um ataque de nervos

João Miguel Almeida

Hoje começou oficialmente o terceiro período escolar do ano letivo. Começou também uma situação inédita para pais, alunos e professores – terem de lidar com um período letivo organizado em casa, de acordo com um plano traçado pelos professores.

Tenho um filho no primeiro ciclo e o início de aulas dele e dos seus colegas está a ser exasperante para quase todos, ou mesmo todos, para alguns desesperante, por vezes hilariante.

Uma primeira dificuldade, quando se trata de miúdos tão pequenos, com autonomia reduzida, é os pais, muitos deles em regime de teletrabalho, outros que têm de sair de casa, serem capazes de acompanhá-los.

Mas outras questões se colocam. Nomeadamente, as que dizem respeito à privacidade, direitos de imagem e cibersegurança em regime escolar online. Todos os perigos, em termos de riscos de segurança e de exposição da privacidade que alguns especialistas têm associado ao teletrabalho (ver aqui) existem também, por vezes de uma forma, mais insidiosa, para a «telescola».

 

Hoje tivemos de esclarecer algumas dúvidas sobre a necessidade de filmar e transmitir as imagens para mostrar a aprendizagem pelo nosso filho de algumas disciplinas que são performativas, como a educação física e a música. Temos de filmá-lo a fazer os exercícios físicos e a executar os exercícios musicais indicados pelos professores?

Um professor de educação física de crianças do primeiro ciclo sugeriu que, em casa, os alunos saltassem de cadeiras e sofás. Ou seja, que fizessem como exercício escolar aquilo que geralmente são proibidos de fazer em casa.

Para famílias com um filho na casa dos sete anos e outro mais novo, na casa dos três anos. Os casos são especialmente bicudos. Como impedir que, quando o filho mais velho está a cantar, o de três anos não se ponha a dar o ar da sua graça? Como dizer ao filho para dar saltos das cadeiras ou do sofá para executar exercícios de educação física e depois impedi-lo de fazer o mesmo em «tempo de recreio» ou impedir os mais novos de imitar os «exercícios físicos» do mais velho?

Algumas questões que começaram por nos atazanar o dia foram resolvidas com bom senso. Outras nem por isso. A capacidade de lidar com os problemas é muito desigual. Varia com o número e o tipo de filhos, a disponibilidade dos pais e o melhor ou pior senso dos professores.

E o pior é que os argumentos de que se deve mandar as crianças «abrir caminho» ao regresso à escola não me convencem. Porque as crianças pura e simplesmente não conseguem manter o distanciamento social; porque hoje muitas pessoas têm filhos tarde e não se pode generalizar que os pais de crianças no primeiro ciclo estejam na casa dos vinte e trinta anos; porque os pais têm de trabalhar fora e são os avós que muitas vezes cuidam das crianças em casa.

Talvez fosse possível pensar numa solução diferenciada em que algumas crianças continuavam a estudar em casa, com faltas justificadas, e outras regressavam à escola. Pelo menos, assim, haveria uma redução do número de crianças nas escolas. E talvez esta diferenciação, paradoxalmente, resolvesse algumas desigualdades, pois há crianças que ficam em grande desvantagem se têm de estudar em casa.

Mas não seria fácil para as crianças que continuassem em casa.

Não creio que a escola em «tempos de covid-19» vá ser fácil para ninguém.

13
Abr20

A bolsa, a morte por covid-19 e o bem-estar

João Miguel Almeida

Defender que não deve haver confinamento da população em geral porque não salva vidas é cientificamente questionável mas não levanta objeções éticas.

Mas há quem recuse o confinamento, mesmo admitindo que salva vidas, porque é mau para a economia. Foi o que Donald Trump sugeriu quando disse: «Não podemos permitir que a cura seja pior que a doença». Do atual presidente dos Estados Unidos já nada nos surpreende, mas Peter Singer, um famoso filósofo especialista em questões éticas, publicou um artigo, juntamente com Michael Plant, em que afirma que Donald Trump tem razão. Ver aqui.

Peter Singer defende que a decisão sobre confinar ou não as populações, não é uma escolha entre saúde e riqueza, mas entre dois tipos de «bem-estar» (wellbeing). Para sabermos qual é a decisão eticamente correta, temos de calcular qual é que produz maior bem-estar. É a conclusão lógica da sua ética utilitária.

Partindo do pressuposto de que o confinamento salva vidas, o filósofo considera que, de um ponto de vista ético, deve ser levado em consideração que as consequências económicas negativas vão enfraquecer a saúde pública futura e prejudicar o bem-estar das gerações futuras, ou o nosso, no futuro.

Apesar de Peter Singer estar mais focado em expor os diversos aspetos do problema do que em oferecer uma solução, as suas ponderações têm uma lacuna que me faz espécie: ele atribui ao Estado o poder de decretar o confinamento, mas não considera o papel que o Estado e organizações internacionais podem ter na recuperação económica.

O que está implícito no pensamento de Donald Trump é o seguinte: o Estado até pode intervir numa situação de emergência de saúde, mas depois não tem de meter o nariz na recuperação económica nem no bem-estar posterior dos seus cidadãos. Nessa perspetiva, de facto, não vale a pena atrapalhar muito o sinistro trabalho do «covid-19».

Mas se pensarmos que um Estado que decreta o confinamento geral da população para salvar vidas tem legitimidade para desempenhar um papel ativo na recuperação económica e no bem-estar dos seus cidadãos, em colaboração com organizações internacionais e organizações cívicas, a nossa ponderação moral das decisões políticas será diferente.

12
Abr20

Notas sobre uma imagem no domingo de Páscoa

João Miguel Almeida

Este cristão desafia as restrições à circulação de pessoas para rezar diante do Santo Sepulcro

Imagem retirada do jornal Expresso daqui.

Neste domingo de Páscoa, os meios de comunicação social têm publicado muitas imagens relativa à fé cristã que neste dia celebra a ressurreição de Cristo.

De todas as imagens impressionantes que vi, escolhi esta. Não é fácil explicar por palavras a força de uma imagem. A legenda do Expresso é a seguinte: «Este cristão desafia as restrições à circulação de pessoas para rezar diante do Santo Sepulcro». É uma aproximação da linguagem verbal, indicando o seu tempo e lugar, as suas circunstâncias, mal tocando o seu enigma.

O verbo desafiar é um passo em direção à imagem. A fé, em especial a fé cristã, é muitas vezes associada à resignação e a grupos numerosos, pelo menos nas ocasiões festivas. Aqui vemos um homem em atitude de desafio e só. Mas a atitude deste homem sozinho diante de uma praça vazia só pode estar em comunhão com a de muitos outros homens e mulheres, do presente e do passado, homens e mulheres com quem sente partilhar a sua fé e/ou o seu sofrimento.

O homem é um desconhecido. Dele nada sabemos, exceto que tem fé.

A sua alegada atitude de desafio face às restrições de circulação de pessoas não é imprudência. Por isso tem as mãos cobertas por luvas.

A postura do homem é vertical. Os pés estão juntos e os joelhos afastados formando um triângulo. As mãos afastadas do tronco também formam um triângulo com a cabeça descoberta, erguida ao centro. O homem está firmemente ajoelhado sobre um chão de pedra, erguendo o tronco para o alto e para a frente.

Os sapatos do homem têm solas fortes e gastas. É um homem espiritual habituado a pisar chão duro.

Diante dele está uma praça vazia, mas é no vazio que lança o seu apelo, é do vazio que recebe força, é no vazio que projeta a sua esperança.

 

10
Abr20

Crónica do Ano da Covid-19

João Miguel Almeida

Neste blogue não pretendo defender nenhuma tese sobre a covid-19, apenas publicar uma crónica que sirva de registo e de testemunho, a partir da minha situação concreta, destes tempos de crise e mudança. Escrito isto, mantenho uma atenção crítica às diferentes teses, interpretações, análises que vão sendo publicadas sobre a pandemia e os seus efeitos sociais, económicos e políticos. Aceito, provisoriamente, as teses que me parecem melhor fundamentadas e exponho as minhas reservas em relação a outras.

Na dúvida, cumpro as normas de segurança decretadas por um governo e um presidente da República que têm melhor informação científica do que a que disponho sobre a pandemia. O Estado português – e já agora, a maioria dos portugueses – não são imunes à crítica nem sequer ao disparate mas, até agora, têm-se saído melhor nesta crise do que outros países, alguns bem perto de nós, outros – como os Estados Unidos e o Reino Unido – que costumam ser apresentados como faróis cá no burgo.

Um comentador frequente deste blogue defende que a melhor forma de combater o covid-19 seria enviar as crianças para as escolas, deixá-las infetarem-se umas às outras e, desse modo, alcançar a imunidade de grupo. Ainda que fosse verdade…quem estaria disposto a correr riscos para confirmar esta verdade?

Luís Salgado Matos no seu blogue vale sempre a ler, mesmo que seja para discordar, o Economista Português, tem vindo a contestar a quarentena devido aos seus desastrosos efeitos económicos e apresenta-nos um gráfico ( ver aqui) que compara a evolução do covid-19 em três países: Portugal, Holanda e Suécia. Portugal adotou o confinamento, a Holanda e a Suécia não.

A partir do dia em que há registos dos três países, a evolução é semelhante. Daí o blogger conclui que o confinamento é inconsequente. Mas os outros gráficos que tenho visto compararam a evolução entre os diferentes países a partir do número de dias após o primeiro registo (ou do centésimo), ou da primeira morte, em todos eles.

No referido gráfico a Suécia e a Holanda têm um pico de casos antes de haver registos em Portugal. Se as três linhas partissem todas do mesmo ponto podíamos chegar à conclusão oposta: o confinamento poupou-nos os picos iniciais que sofreram a Holanda e a Suécia.

Infelizmente, pelo que tenho lido, o confinamento forçado pouco mais faz por nós do que dar-nos tempo e atrasar o processo. O que é melhor do que nada, pois durante esse tempo muitas pessoas estão a ser e serão testadas e os serviços de saúde reforçarão a sua capacidade. Quando a quarentena acabar lá para maio estaremos melhor preparados para resistir ao covid-19 do que se tivéssemos andado por aí, como se nada fosse. Será muito mais difícil chegarmos ao caos nos serviços de saúde que afetaram Itália, Espanha ou o Estado de Nova Iorque.

Até gostava que os críticos da quarentena tivessem razão. Isso queria dizer que, após o fim da quarentena, continuávamos com a baixa mortalidade que temos tido até agora.

08
Abr20

Os dias críticos de abril

João Miguel Almeida

A minha atitude em relação à pandemia do covid-19 em Portugal é de otimismo cauteloso. Ou seja, rejeito duas atitudes antagónicas: por um lado os pessimistas que pensam que Portugal pode alcançar rapidamente o estado de Itália; do outro lado os céticos que não veem razão para alarme, nem sequer para uma quarentena geral da população, pois os números de mortos do covid-19 em Portugal não são superiores, e até podem ser inferiores, ao de outras doenças que não recebem a mesma atenção mediática.

A minha convicção pessoal é que o risco de apanhar covid-19 para pessoas saudáveis que não trabalham na área da saúde, na assistência em lares da terceira idade, ou em contacto com outros grupos de risco é relativamente baixo, se, sublinho se, a quarentena for respeitada e todas as medidas e gestos de segurança recomendados sejam cumpridos por mais absurdos ou ridículos que possam parecer.

Mas abril pode trazer uma reviravolta da atual situação. Em tempos de Páscoa, muitas pessoas levadas pelo falso sentimento de segurança induzido pelos gráficos mostrando que a curva dos infetados está a aplanar (ver aqui), pelo cansaço da quarentena e pelo hábito e desejo de reencontrar familiares, podem baixar as guardas e o número de infetados voltar a subir.

Nesse caso, só umas duas semanas após o domingo de Páscoa nos aperceberemos do fenómeno. E só umas três ou quatro semanas terá efeito na mortalidade.

Esperemos que até lá o serviço nacional de saúde tenha reforçado os seus meios para tratar os doentes em cuidados intensivos.

07
Abr20

Fugir da Morte

João Miguel Almeida

As histórias que tenho ouvido de pessoas que fogem do covid-19 para uma segunda habitação, ou fogem do Norte para o Sul de Itália, ou arrancam de Lisboa para o Algarve como se atirassem a pandemia para trás das costas lembram-me uma fábula narrada por muitos, sendo o seu narrador mais conhecido Somerset Maughan: «Encontro marcado em Samarra».

Eis a minha versão, a partir da narrativa de Somerset Maughan:

Ontem o empregado que mandei ao mercado de Bagdad comprar provisões veio ter comigo a tremer de medo. Disse-me que, na multidão, uma mulher o empurrou. Olhou-a e reconheceu a Morte, que lhe fez um gesto ameaçador. Após me contar este encontro, em pânico, pediu-me um cavalo para fugir para Samarra, onde a Morte não o iria encontrar. Emprestei-lhe o cavalo e ele partiu a galope. Ao fim da tarde, fui ao mercado e também encontrei a Morte. Sentia-me seguro de mim e não lhe mostrei medo. Perguntei-lhe: por que é que assustaste o meu empregado? Ela respondeu-me: Não o quis assustar. Estava espantada por o encontrar em Bagdad, pois tenho um encontro marcado com ele esta noite em Samarra.

06
Abr20

O bom profeta é desacreditado

João Miguel Almeida

A baixa mortalidade por covid-19 em Portugal até seis de abril – 311 mortos – parece dar razão aos críticos do confinamento de toda a população. O susto, ou terror, causado pelo crescimento, dia a dia, do número de infetados e de mortos por covid-19 está a ser criticado como uma ilusão e essas críticas têm alguma base empírica. É que o espectador comum da televisão não tem números para comparar. Se todos os anos seguíssemos a evolução de contágio das gripes normais e dos mortos que causam, os números podiam ser mais impressionantes do que têm sido, nas últimas semanas, em Portugal.

Segundo um blogger português que considera escravos boçais todos os que discordam dele e que me paga os links que faço para o seu blogue com insultos, em Portugal terão morrido 660 pessoas com pneumonia em março de 2019, enquanto em março deste ano foram só 187. Não confirmei este número noutra fonte. Admito que ele seja verdadeiro. Se o for, significa que no ano passado, no mês de março, morreu em Portugal mais ou menos a quantidade de pessoas que estão a morrer com covid-19 em Espanha por dia.

Na interpretação destes números há ter em conta o «efeito Jonas». O profeta Jonas é o profeta menos considerado da Bíblia. Há mesmo quem não o considere um verdadeiro profeta, mas apenas uma personagem humorística de uma história cómica. Jonas é enviado por Deus, contra a sua vontade, a Nínive, capital da Assíria, para profetizar. A sua missão é dizer aos assírios que serão alvo da fúria divina se não se arrependerem nos próximos quarenta dias. Os assírios arrependem-se dos seus atos sanguinários, fazem jejum, e não são castigados. Como a profecia de Jonas não se realizou, passa por um falso profeta e ele próprio acha que fez figura de parvo. Jonas é visto como um falso profeta porque foi um profeta eficaz.

O número de infetados e mortos por covid-19 em março passado foi baixo, porque a maior parte da população portuguesa aderiu à quarentena. Se a quarentena não tivesse sido decretada e não houvesse outras medidas destinadas a proteger as pessoas, o número de mortos seria muito mais elevado.

Espero que continuemos a ser vítimas do nosso próprio êxito e não do covid-19.

O PROFETA JONAS PRECISA DE CONVERSÃO | Pe. José Artulino Besen

04
Abr20

O risco da pandemia e o risco da recessão

João Miguel Almeida

Será que a pandemia do covid-19 é uma «alucinação coletiva», como defende um investigador suíço de saúde pública? (ver aqui

Mesmo admitindo o argumento de que o risco de uma pessoa saudável morrer de covid-19 é baixo e que as taxas de mortalidade se verificam em grupos de risco, em especial pessoas com mais de setenta anos, considero que, de um ponto de vista ético, proteger as pessoas dos grupos de risco é razão suficiente para adotar medidas de segurança, mesmo que sejam incómodas para toda a população.

É fácil criticar as políticas de confinamento de toda a população, apontando o exemplo da Coreia do Sul, de Singapura e de Hong Kong em que, em vez do confinamento total da população, destruidor da economia, se fizeram testes em massa e se isolaram apenas as pessoas com resultados positivos no teste do covid-19.

Nenhum país europeu, quando a crise do covid-19 começou, se encontrava em condições de realizar testes de covid-19 em massa. Boris Johnson louvou a esta solução, mas o Reino Unido também não estava preparado e os resultados foram desastrosos.

Considerando os meios que dispunha, o confinamento de toda a população, foi a melhor das soluções possíveis para o poder político. Quem adotou esta medida mais cedo, como Portugal, tem obtido melhores resultados. É discutível se a fórmula do «estado de emergência» é a melhor, se não foi adotada de um modo demasiado abrupto, mas essa avaliação está a ser feita e discutida todos os quinze dias.

Sendo este o ponto da situação, podemos interrogar-nos se, para proteger a economia, não será melhor terminar o estado de emergência (ou outra fórmula qualquer de confinamento), o mais depressa possível. Um estudo realizado por economistas e que podem ler aqui defende a tese oposta. O confinamento por um período curto não provoca uma recessão tão profunda a curto prazo, mas atrasa a recuperação a longo prazo. Em vez de isolar apenas os infetados com covid-19, os autores do estudo defendem uma solução contrária: manter o confinamento total da população e ir dando liberdade de circulação aos que já tiveram o covid-19 e recuperaram.

Quantas mais pessoas se salvarem durante a crise do covid-19 melhor será para a economia. Até porque não é possível separar a economia das pessoas. O que é bom para a economia, como o que é bom para a saúde pública, é bom para todos nós.

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