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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

27
Jun20

À minha sobrinha que nasceu no ano da covid-19

João Miguel Almeida

Nasceste no ano da covid-19. Demorarás alguns anos a ter consciência deste facto e a perceber que, por causa dele, os teus primeiros dias de vida foram um pouco diferentes dos de outros bebés da tua família. Não houve visitas no hospital. Quando foste para casa, as visitas continuaram a ser raras. Ao fim de uma semana os teus tios e primo foram visitar-te, com a cara azulada por causa da máscara. O teu primo de oito anos pegou-te ao colo, sentado no sofá da sala, tenso, por estar a pegar num bebé tão pequeno, e com a fatídica máscara posta.

É um enigma para nós sabermos como verás estes dias que não podes recordar e o que poderás pensar se, eventualmente leres este texto. Sentirás curiosidade por saber pormenores acerca de um ano singular? Sentirás interesse por conhecer melhor como começou uma «nova normalidade»? Acharás cómicos os cuidados exagerados e os sentimentos alarmistas que as pessoas tinham em relação às andanças de um vírus não pior ou até menos mau do que muitos outros que vieram depois e foram combatidos de forma mais eficaz e descontraída?

Seja como for, o teu nascimento foi um acontecimento luminoso num ano cheio de sombras.

20
Jun20

Epidemias do século XIX nos versos de Cesário Verde

João Miguel Almeida

Nós

 

I

 

Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre

E a Cólera também andaram pela cidade,

Que esta população, com um terror de lebre,

Fugiu da capital como da tempestade.

 

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas,

(Até então nós só tivéramos sarampo)

Tanto nos viu crescer entre os montões de malvas

Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

 

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:

O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;

Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos

Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

 

Na parte mercantil, foco da epidemia

Um pânico! Nem um navio entrava a barra,

A alfândega parou, nenhuma loja abria,

E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

 

Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,

Rodavam sem cessar as seges dos enterros,

Que triste a sucessão dos armazéns fechados!

Como um domingo inglês na «city», que desterros!

 

 

Sem canalização, em muitos burgos ermos,

Secavam dejecções cobertas de mosqueiros.

E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,

Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

 

Uma iluminação a azeite de purgueira,

De noite, amarelava os prédio macilentos.

Barricas d’ alcatrão ardiam; e maneira

Que tinham tons d’ inferno noutros arruamentos.

 

Porém, lá fora, à solta exageradamente,

Enquanto acontecia essa calamidade,

Toda a vegetação, pletórica, potente,

Ganhava imenso com a enorme mortandade!

 

Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,

Numa opulenta fúria as novidades todas,

Como uma universal celebração de bodas,

Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

 

Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,

Triste d’ ouvir falar em órfãos e em viúvas,

E em permanência olhando o horizonte em brasa,

Não quis voltar senão depois de das grandes chuvas.

 

Ele, dum lado, via os filhos achacados,

Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!

E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,

E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!

 

E o campo desde então, segundo o que me lembro,

É todo o meu amor de todos estes anos!

Nós vamos para lá; somos provincianos,

Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!

 

 

14
Jun20

Centros comerciais sem problemas, festas populares sob suspeita

João Miguel Almeida

O dia em que muitos lisboetas procuram recuperar da ressaca da festa de S. António que lhes foi negada por causa da covid-19 é a véspera da abertura dos centros comerciais em Lisboa.

Sobre as razões das restrições aos festejos dos santos populares e o clima depressivo que causou já foram publicados alguns textos (ver aqui).

Causa-me alguma perplexidade o contraste entre temor e ao rigor com que foram tratadas as festas dos santos populares e a descontração relativa à abertura de centros comerciais em toda a parte, mas especialmente na capital.

As festas populares acontecem uma vez por ano e a maior parte das pessoas festejam ao ar livre. Os centros comerciais estão abertos todos os dias, são espaços fechados e os ares condicionados são bons propagadores de vírus. Acresce que algumas pessoas já costumavam «passar férias» nos centros comerciais e num contexto de lay-off e de desemprego esse número pode aumentar.

Até agora a gestão pelo governo do confinamento e do desconfinamento pelo governo, nas suas linhas gerais, tem seguido recomendações científicas e o bom senso. Mas neste caso não percebo por que é que não houve uma atitude mais descontraída em relação às festas dos santos populares e por que é que a abertura dos centros comerciais não é mais cautelosa.

Os santos nos ajudem – a ter bom senso.

06
Jun20

Os estragos sociais da covid-19

João Miguel Almeida

O senhor António (nome fictício) tem a quarta classe, vive com a mulher e a filha num bairro social e trabalha num talho.

A filha, de nove anos, no quarto ano, desde o início do confinamento que não sai de casa.

Num bairro social não há situações de meio termo – ou se faz a vida do bairro com todas as portas abertas ao vírus ou se fecham todas as portas.

Para o ano a criança devia entrar no quinto ano e sair da escola do bairro social. Este é um ano marcante. As aulas online exasperam a família. Os pais tentam ajudá-la e não conseguem. Têm ambos a quarta classe. Mesmo eu e a minha mulher, ambos doutorados, quando tentamos ajudar o nosso filho no terceiro ano somos surpreendidos por mudanças de classificação e de métodos. Mas conseguimos pesquisar e perceber como ajudá-lo.

A criança no bairro social tem de preencher Quiz e escreve as repostas todas certas, mas o sistema informático dá todas erradas porque ela introduziu em cada resposta uma palavra que não é reconhecida.

A covid-19 está a agravar todas as doenças sociais já existentes.

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