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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

19
Jul20

cenas da covida

João Miguel Almeida

  • Um homem entra por volta das sete e meia da noite num supermercado. Entre outros produtos, vai comprar bebidas alcoólicas. Uma voz projetada por altifalantes avisa dos clientes de que a partir das oito horas não será possível comprar bebidas alcoólicas. O homem vai pondo no carrinho das compras, entre outros produtos, cervejas e vinho. Quando os ponteiros dos minutos se aproximam das oito horas, são colocadas baias à frente das prateleiras com bebidas alcoólicas. O homem está na bicha para a caixa do supermercado. São quase oito horas. Uma funcionária passa com um carrinho e vai retirando aos clientes todas as bebidas alcoólicas. Retira mesmo a uma cliente uma garrafa que já estava no tapete da caixa. Após as oito horas, a máquina registadora não pode dar sinais da venda de qualquer bebida alcoólica.

  • À saída de um supermercado, um homem, garrafa numa mão e máscara presa no pulso de outra, vai bebericando cerveja. Espirra. Com um dedo tapa uma narina e atira o ranho pela outra. Volta a pôr a máscara na cara. Não era Mr. Bean.

  • Um homem conhecido por apanhar pielas está caído no chão. Alguém chama o INEM. Os enfermeiros sacodem-no e atacam-no com perguntas: Sente-se bem? Está febril? Tem tosse? – As pessoas que já o conhecem tentam avisar os enfermeiros de que o homem está apenas bêbedo. Mas os enfermeiros não se convencem e querem à força encontrar no bêbado sintomas de covid-19. O bêbado, meio aparvalhado, vai abanando a cabeça e dizendo não, não, não.

  • Nove doentes, alegadamente com covid-19, são transferidos do hospital Amadora-Sintra para Santarém. O novo hospital testa os nove recém-chegados e todos os testes dão negativos para a covid-19. Ou o SARS-CoV-2 anda a brincar connosco ou há contaminações em laboratórios que testam a covid-19.

11
Jul20

Desconfinar ou reconfinar ou…?

João Miguel Almeida

O vírus SARS-CoV-2 trouxe com ele incertezas permanentes e verdades provisórias. A verdade de hoje é que a epidemia está a estabilizar em Lisboa, com Rt abaixo de 1 (ver aqui), e trata-se de uma verdade coerente com o reforço de medidas em finais de junho e início de julho.

A minha sensação, que me parece partilhada por muitos, é que devo fazer o que depende de mim para evitar a covid-19, mas há muito, demasiado, que não depende de mim.

As críticas ao governo partem de muitos lados e a crise de uma pandemia demonstra até ao absurdo que as ações individuais são indispensáveis, mas não bastam para lidar com uma situação como esta em que a ação do Estado é decisiva para garantir um mínimo de segurança às pessoas. No entanto, creio que a margem do governo é mais curta do que a maior parte das pessoas imagina.

Seria difícil o governo e o Presidente da República não terem decidido confinar a população portuguesa no início da pandemia. O modelo sueco não podia ser tomado à letra em Portugal. Em primeiro lugar, porque o modelo sueco partiu de pressupostos de uma realidade social diferente, em que as pessoas de mais idade convivem pouco com os mais jovens. O raciocínio foi: os jovens apanham o vírus e recuperam, os velhos vivem isolados dos jovens e estão protegidos. Foi esquecido que os velhos suecos a viver em lares podem estar isolados dos jovens da sua família, mas não o estão dos trabalhadores que lhes prestam assistência. Em segundo lugar, em Portugal já estava instalado o alarme social com um espetáculo mediático montado em volta de cenas de horror epidémico em Itália e Espanha. Se o governo português decidisse imitar a Suécia, haveria um «confinamento selvagem», com pessoas a fechar empresas, a despedir-se, a tirar os filhos da escola, e enfiavam-se todos em casa sem qualquer proteção legal ou apoio educativo.

Atualmente, quando o espetáculo de horror mediático se deslocou da saúde pública para a economia, também seria improvável reconfinar sem dar a impressão de cometer um suicídio económico, como parece que aconteceu na Argentina. Há medidas tomadas a nível nacional e local que são discutíveis e criticáveis. Por exemplo, não percebo por que é que, no combate à epidemia, se reduz o horário nos centros comerciais, favorecendo a formação de bichas frente à entrada e a concentração de pessoas no interior quando o alargamento dos horários é que evitaria as bichas e favoreceria a circulação mais à vontade no interior dos centros comerciais.

A «covida» é um nó górdio que ninguém, a começar ou a acabar no governo, ainda conseguiu desfazer com um só golpe. Toda a sociedade e todos os poderes, grandes e pequenos, públicos e privados, estão envolvidos na adaptação à «covida» e no combate por uma vida sem prefixos, num processo sem fim à vista.

05
Jul20

O vírus da mentira

João Miguel Almeida

É costume ser dito que na guerra a verdade é a primeira baixa. A verdade também está a ser dizimada pela epidemia de covid-19. A Grécia teria uma estranha imunidade à covid-19. Em Espanha, os números têm evoluído num sentido muito favorável ao turismo. Nos Estados Unidos e no Brasil os números são horríveis, mas o governo testa pouco, evitando que sejam ainda mais assustadores.

Nós por cá temos os números que temos, que estão a ser usados contra nós na guerra económica, em especial a guerra do turismo.

 É absurdo que o governo britânico tenha imposto quarentena obrigatória aos turistas ingleses que visitarem Portugal no regresso a Inglaterra, dado que a situação da pandemia em território inglês é muito pior do que em território português. Mas nem só os governos torneiam a verdade. A quarentena obrigatória não é aplicável à Escócia. O que acontecerá este verão é que muitos ingleses visitarão Edimburgo antes de visitarem Portugal. Haverá uma brutal descida de turismo inglês e uma explosão do turismo «escocês».

Esperemos que a saúde económica não seja mais flagelada do que a saúde física dos portugueses.

04
Jul20

Nem relaxe nem alarmismo

João Miguel Almeida

O stress causado pelos dias de confinamento, pelos dias de desconfinamento em que foi necessário gerir teletrabalho e escola online, pelo bombardeamento mediático acerca da covid-19, estão a levar os portugueses a atitudes extremas de negação ou de paranoia acerca da pandemia.

Não sou propriamente um adepto de que «no meio é que está a virtude», mas penso que, no estado atual da pandemia não é justificado nem o relaxe nem o alarmismo. Creio que o risco de eu morrer de covid-19 é baixo. Mesmo assim, há um risco razoável de, se for portador do vírus, contagiar pessoas que podem ficar gravemente doentes e até morrer. Ou, no caso de eu próprio adoecer, ficar com sequelas. São riscos suficientes para ter cuidado.

O alarmismo também é outra atitude injustificada e a telenovela em volta da covid-19 já me começa a cansar. Em Portugal morrem, em média, cerca de trezentas pessoas por dia. Sete mortes por covid-19, o número de hoje, corresponde a um pouco mais de dois por cento do total de mortes. Se fosse elaborada uma lista macabra com o top das maiores causas de morte em Portugal, a covid-19 não estaria certamente no topo da lista.

Hoje o cabeçalho dos jornais é que houve mais 413 casos confirmados. Mas estes «casos» são uma categoria ambígua que inclui quer pessoas realmente doentes quer simples portadores de vírus que, uma vez identificados, ficam sob vigilância e isolamento para evitar contágios. Hoje também foram confirmados mais 348 recuperados e esta categoria não é ambígua, são mais 348 pessoas que venceram, comprovadamente, a doença, e, logo, outros tantos passos em direção à imunidade de grupo.

Desconfinar é preciso – com cuidado mas sem alarmismos.

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