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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

29
Ago20

Férias contingentes

João Miguel Almeida

A covid-19 permitiu-me passar uma semana de férias muito agradável no Algarve, na primeira metade de agosto. Nunca tinha ido à praia em questão e imagino que, em verões normais, esteja repleta de turistas. Mas eu estive lá com o núcleo familiar em ano de covid e em tempo de corredor aéreo com o Reino Unido fechado.

Tudo o imaginário que construíra sobre regras complicadíssimas a frequentar a praia revelou-se infundado. Muitos portugueses, talvez porque imaginaram praias em agosto de um modo semelhante ao meu, preferiram concentrar-se no Parque Natural da Peneda Gerês. Passei lá excelentes férias, mas, pelas reportagens televisivas, este ano foi uma má opção.

De diferente na praia notei apenas uma bandeira hasteada que indicava não o estado do mar, mas da frequência. Geralmente a bandeira estava no amarelo. No último dia a maré estava cheia e as pessoas tinham menos espaço na areia para se mexerem. Quando chegámos à praia vimos a bandeira vermelha hasteada, mas ninguém nos impediu de entrar.

Uma das inovações estivais que se deve à covid-19 são as «apps» que indicam a «cor da frequência da praia». Basta consultar o telemóvel para saber se a praia tem pouca, a suficiente ou demasiada gente. É uma boa ferramenta que será útil no mundo «pós-covid».

Admito que, na mesma semana, no verão passado, fosse difícil encontrar lugares para estacionar ou mesas para comer em restaurantes. No início do mês que agora finda foi bastante fácil estacionar o carro e comer em restaurante onde só mais uma ou duas mesas estavam ocupadas. Os empregados que nos atendiam eram bastante zelosos.

Bastou o Reino Unido abrir o corredor aéreo para o cenário que descrevi se alterar completamente. A bem da economia e esperemos que não a mal da saúde pública. É possível que esta situação também seja efémera. A contingência não é apenas uma condição legal, é o estado do mundo.

08
Ago20

Perguntas aos números da covid-19 em Portugal

João Miguel Almeida

O dia de «zero mortes por covid-19», que coincidiu com um mínimo de novas infeções, foi recebido com euforia, alívio ou desconfiança. Nos dias que se seguiram, os números voltaram a subir, frustrando ou confirmando muitas expectativas.

A ligeira subida dos números desde o «dia zero mortes» não me aquece nem arrefece. De certo modo, considero-a um sinal de que os números não foram «martelados» e de que o critérios de contagem são consistentes.

A questão principal não é a descida ou subida dos números, mas o que eles significam, o que não é nada claro. Reconheço que a recolha e divulgação da informação é transparente – até mais do que noutros países europeus, mas o tratamento dos dados torna-os opacos. Para tornar os números legíveis seria preciso que eles respondessem às seguintes questões:

- Quantos dos «casos confirmados» é que correspondem a pessoas verdadeiramente doentes e quantos é que correspondem a simples portadores de vírus?

- Quantas pessoas doentes é que o são de forma ligeira e quantas é que o são de forma grave?

- Quantos óbitos é que foram causados pela covid-19 e quantos correspondem a pessoas que, mesmo que não tivessem covid-19, morreriam na mesma a curto prazo?

Suspeito que a resposta a estas questões baixaria muitas ansiedades associadas à pandemia.

 

02
Ago20

Entre a ficção da Netflix e a telenovela da covid-19

João Miguel Almeida

Como muitos portugueses, enquanto fechava a minha casa ao SARS-CoV-2, liguei-a à Netflix. E com a Netflix chegou «La Casa de Papel», «Black Mirror» e «Luther».

As séries da Netflix partem da ficção para nos dar uma imagem, ainda que distorcida, da realidade. O entretenimento contém sempre alguma informação.

Com a pandemia a minha casa foi também invadida pela telenovela da covid-19, em exibição nos telejornais, nos jornais online, em todo o lado.

A telenovela da covid-19 parte da realidade, mas acrescenta-lhe uma série de géneros ficcionais: drama, ficção científica, horror, etc. A informação contém sempre uma dose de entretenimento. Muitas vezes a má informação é misturada com o mau entretenimento.

Infelizmente já sabemos que «La Casa de Papel» só vai ter mais uma temporada; a telenovela da covid-19 não tem fim à vista e pode ter várias sequelas.

01
Ago20

Um futuro sem confinamentos gerais

João Miguel Almeida

Este verão vamos todos descobrir o que é a covida em férias. E depois veremos como é possível conviver em tempo de escola, trabalho e humidades outonais e invernais com o SARS-CoV-2 e os vírus que se seguem.

Não acredito é que seja possível voltarmos a um confinamento geral. As condições que potenciam pandemias como a da covid-19 não vão desaparecer tão cedo. Estou a referir-me à destruição de habitats naturais e à promiscuidade entre animais selvagens, animais domésticos e seres humanos. A China já tomou medidas rigorosas para evitar situações propícias a novas epidemias. Mas, por exemplo, no Brasil, na Amazónia, toda a política vai num sentido contrário. Se nos próximos dez anos tivermos mais quatro ou cinco pandemias como a da covid-19 é inviável responder às novas crises com novos confinamentos gerais e outros tantos afundamentos económicos.

Continuo a achar que o confinamento geral teve razão de ser no nosso país, por duas razões: em primeiro lugar, mesmo que se prove que o confinamento não evita mortes, apenas as adia, acho que valeu a pena. Não é a mesma coisa termos mil e quinhentas mortes em três meses ou em três semanas, quando o sistema nacional de saúde foi apanhado de surpresa, sem equipamentos adequados. O adiamento permitiu adquirir novos equipamentos e evitar que os médicos tivessem que escolher a quem é que davam o ventilador. Em segundo lugar, havia um alarme instalado na sociedade e, se o governo não decretasse o confinamento, havia o risco de haver uma proliferação de «confinamentos selvagens» com pessoas a despedir-se, pais a retirarem os filhos das escolas, empresários a fecharem empresas, com impactos sociais e económicos tão ou mais negativos do que o confinamento implementado pelo governo e Presidente da República, com apoio do parlamento.

Mas foi uma situação irrepetível. O sistema nacional de saúde, as famílias, os trabalhadores, os empresários, os responsáveis políticos têm agora uma consciência dos perigos, dos recursos para gerir a situação, que antes não possuíam. Tudo o que aprenderam nos últimos meses terá de ser usado para conviver com os vírus.

Desconfinar é preciso.        

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