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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

30
Nov20

Fechar as escolas para quê?

João Miguel Almeida

Tenho considerado razoáveis a maior parte das medidas tomadas pelo governo para combater a pandemia. Não é o caso da decisão de fechar as escolas hoje e na próxima segunda-feira. Os miúdos estariam em maior segurança nas escolas do que na rua. Para os pais em teletrabalho também seria melhor ter os filhos nas escolas do que em casa a sobrecarregá-los. Para os avós que hoje recebem os netos, enquanto os pais trabalham, também seria mais seguro manter uma relação com os netos à distância.

Muitas famílias evitaram todos estes inconvenientes saindo do concelho da sua residência na sexta-feira passada, antes das onze da noite, e passando o fim-de-semana prolongado noutro concelho. Mas arriscam-se, nestas idas e voltas entre diferentes concelhos, fintando restrições, a dar boleias involuntárias ao famoso vírus SARS-CoV-2.

28
Nov20

O vírus em fim-de-semana prolongado

João Miguel Almeida

Tenho concordado com as linhas gerais do combate à covid-19 pelo governo português: confinamento numa fase inicial em que nem o sistema nacional de saúde nem a população estavam preparados para responder à pandemia e, durante a «segunda vaga», evitar um segundo confinamento que destrua ainda mais a economia.

Este apoio à ação do governo não exclui críticas em relação à gestão do tempo, comunicação e adoção de algumas medidas. Este mês tem sido marcado por passos em falso em todas estas categorias. Acertar o passo não é fácil quando nem sequer os cientistas se entendem e todos os dias somos confrontados com previsões da evolução da pandemia que umas semanas depois se revelam falsas.

Não creio que tenha sido boa ideia criar um fim-de-semana prolongado suspendendo as aulas na véspera do feriado de 1 de dezembro e dando tolerância de ponto à função pública. E ainda menos acompanhar esta medida com a proibição de circulação entre concelhos entre as 23 horas de 27 de novembro e as cinco da manhã de 2 de dezembro.

O resultado já foi noticiado: ontem, sexta-feira, antes das 23 horas, muitas pessoas saíram de Lisboa para gozarem um fim-de-semana prolongado. Ao fazê-lo podem espalhar o vírus pelo país, incluindo concelhos com poucos ou nenhum casos de covid-19, ou trazê-lo para a cidade onde vivem, quando regressarem.

Compreendo o ponto de vista de quem aproveita o fim-de-semana, até na perspetiva de combate à pandemia: é preciso evitar estados depressivos e recuperar energias. Estar de boa saúde física e mental é outra forma de combater a covid-19. Conciliar o bem pessoal com o bem comum é um caminho por vezes estreito e nestes tempos de pandemia é estreitíssimo.

 

09
Nov20

Antes recolhidos que confinados

João Miguel Almeida

As medidas implementadas no novo estado de emergência, especialmente, o recolher obrigatório, parecem pecar por tardias. A nossa perceção do tempo de ação contra a pandemia está sempre a mudar. Se mesmo hoje as medidas adotadas não merecem consenso nem o amplo apoio de que precisam para serem eficazes, seria ainda mais difícil adotá-las há uma ou duas semanas.

Continuo a valorizar os sinais positivos: a 4 de novembro, o Rt (rácio de transmissibilidade) da covid-19 em Portugal estava a baixar de modo consistente desde 14 ou 15 de outubro. Na região norte tinha baixado de 1,4 para 1,13. (ver aqui). Uma vacina da Pzifer/Bionthec terá 90 por cento de eficácia (ver aqui).

O vírus está em constante mutação e todas as previsões são bastante incertas. No atual estado de condições e de recursos disponíveis, o recolher obrigatório surge como a melhor forma de ganhar dias ou semanas preciosas na luta contra o esgotamento da capacidade de resposta do SNS e evitar um confinamento desastroso para a economia.

É uma arma débil contra a grandeza da ameaça: as unidades de cuidados intensivos (UCI) possuem 852 camas, para “doentes covid” e “não covid”. Há estimativas que dão 500 doentes covid-19 em UCI esta semana (ver aqui). E o pior não é a falta de camas, é a falta de recursos humanos – não se forma um intensivista de um dia para o outro.

Neste cenário, o melhor é fazer o que depende de nós para travar a pandemia. O governo pode adotar medidas melhores ou piores, num “timing” mais ou menos acertado; as empresas podem colocar produtos no mercado mais ou menos eficazes na luta contra a pandemia. Mas o nosso comportamento fará uma diferença fundamental na evolução da covid-19.

 

04
Nov20

Cansado da covid-19 e de escrever sobre a pandemia

João Miguel Almeida

Encaro a pandemia com otimismo moderado, embora seja quase uma provocação escrever isto no dia em que a pandemia bate alcança um número impressionante – 7 497 - e nos dá o lamentável registo de 59 mortes.

Razões para o meu otimismo: a mortalidade associada à covid-19 está a descer, ao contrário do que parece. O número de mortos aumenta de forma preocupante e até assustadora, mas o número de contagiados cresce muitíssimo mais e a percentagem de mortos em relação aos contagiados está a descer porque os tratamentos são mais eficazes. A partir de março do próximo ano a vacina de Oxford começará a ser comercializada. Passarão meses até as vacinas produzirem um efeito social. Mas outras técnicas de combate à covid-19 entrarão no mercado antes do fim do ano: os sprays nasais que podem ser usados de modo preventivo; as luzes ultravioletas que destroem o SARS-CoV-2 e a criatividade humana há-de inventar mais qualquer coisa. E, claro, com o aumento de casos diários, a perigosa “vacinação natural” irá fazendo o seu caminho.

A sensação de fadiga causada pela pandemia é que se instalou e parece difícil de erradicar. Tenho amigos que estão de quarentena em casa porque acusaram positivo nos testes da covid-19. Fisicamente não estão mal, psicologicamente foram-se abaixo. Durante o confinamento, as pessoas podiam sair à rua para dar um passeio higiénico, fazer compras, etc. A quarentena dos contagiados é pior, porque quem a segue à risca nunca sai de casa.

Por enquanto, escapei à covid-19 e nem estou demasiado afetado pela «fadiga da covid-19», mas estou cansado de escrever num blogue sobre a covid-19. Criei o blogue à pressa, durante o confinamento geral, como uma forma de processar a informação sobre o que nos estava a cair em cima; verbalizar e partilhar reflexões, humores, temores e esperanças. Gostei do meu regresso à blogosfera, após uma ausência de vários anos. Mas, ao fim de meses, ter um blogue só dedicado à covid-19 acrescenta fadiga à fadiga de viver a pandemia. Por isso, criei um novo blogue, Estado de Contingência, onde escreverei sobre o que há de contingente neste tempo, à luz do passado e do que pode ser o futuro. Isto é: escreverei sobre tudo e mais alguma coisa.

Não vou encerrar já este blogue, embora me apetecesse. Os apetites são voláteis e daqui a algum tempo pode apetecer-me voltar aqui para comentar uma situação, um acontecimento, uma expectativa, uma experiência. Até que a pandemia desapareça, o que espero que seja já para o ano.

 

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