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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

23
Jul21

A vacina contra a covid-19 como ritual

João Miguel Almeida

A vacina contra a covid-19 vai ficar como uma das memórias coletivas de 2021. Para alguns dos meus conhecidos é uma memória associada ao incómodo e mal-estar dos efeitos secundários. Não foi o meu caso. Tomei as duas doses da vacina da Pfizer, sem efeitos secundários relevantes. Após a primeira dose senti uma sonolência fora do normal. À noite deitei-me vestido em cima da cama, esperando recuperar da quebra física e ainda fazer alguma coisa. A minha mulher não me acordou, pensando que mais tarde ou mais cedo me ia levantar e vestir o pijama. Acordei no dia seguinte vestido em cima da cama. Na memória coletiva, não é possível separar tragédias de anedotas, a vida mistura tudo, ou é o nosso cérebro, ou o nosso coração, que mistura os sentimentos e emoções mais diversos.

Tomei a primeira dose da vacina contra a covid-19 no estádio universitário de Lisboa. Captei uma atmosfera de uma certa tensão, às vezes de solenidade. Pensei que todos os procedimentos meticulosos organizados para vacinar as pessoas em massa tinham qualquer coisa de ritual de purificação coletiva, eram uma versão secular e moderna de antigas cerimónias religiosas para afastar o mal. Na segunda dose, o ambiente era bem mais descontraído, as pessoas estavam ali para se despachar. O tempo de recobro pareceu passar mais depressa.

Convém não esquecer que estamos muito melhor do que há um ano, quando ainda não havia sequer a certeza de que uma vacina contra a covid-19 seria possível. Mas é ilusório pensar que estamos completamente seguros e podemos baixar a guarda – os números dos últimos dias, em especial em Lisboa, estão aí para o mostrar.

 

13
Jul21

A vida dos outros na pandemia

João Miguel Almeida

Uma pessoa vai à garagem fazer a revisão do carro e recebe um inesperado elogio do garagista por o carro ter andando tanto no último ano. A conversa continua e o garagista explica melhor: são cada vez mais, sem conta, os carros que aparecem na garagem e que, desde a última revisão, andaram apenas trinta quilómetros. Não três mil, não trezentos, apenas trinta quilómetros num ano. «Isto não acontecia antes da covid-19», sublinha.

A partir daqui emerge toda uma imagem da vida de outros, muitos outros, durante a pandemia. Têm carro e se saem tão pouco por causa da covid-19 também devem evitar os transportes públicos. O mais provável é que ganhem a vida em teletrabalho. Não devem ter filhos, caso contrário fariam quilómetros a levá-los à escola. Passam dias e dias, semanas e semanas, meses, dentro de casa, frente a um ou dois ecrãs, a trabalhar e a comunicar. Usam o carro para visitar alguém da família, quando é mesmo necessário, ou fazer compras, as indispensáveis.

Assim passam um ano até que, para cumprir a lei, levam o carro à revisão.

A covid-19 tem estragado a cabeça a muita gente.

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