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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

04
Out21

A nova normalidade

João Miguel Almeida

No dia 1 de outubro se alguém lançou foguetes a celebrar a liberdade não se ouviram. Se algumas pessoas os ouviram nem todas terão compreendido os motivos de celebração. O que se iniciou nesse dia foi uma nova normalidade, com sabor estranho, pois algumas das incómodas regras que até agora nos constrangiam foram eliminadas e outras permanecem.

Na biblioteca nacional a temperatura dos leitores já não é medida à entrada, nem têm de usar umas incómodas luvas de borracha. No entanto, as máscaras continuam para leitores e funcionários e os fracos de álcool gel não desapareceram da paisagem.

O meu filho, que entrou para o quinto ano numa escola em que todos os miúdos do seu nível de escolaridade eram obrigados a usar máscaras, experimentou uma mudança de ciclo mais carregada do que o habitual. Não só teve de se adaptar a mais professores, mais disciplinas, um outro nível de exigência. Também passou a ter de usar máscaras na sala de aulas e no recreio. Desde 1 de outubro já pode respirar livremente no recreio.

Espero que no seu futuro, tudo isto não passe de uma bizarra memória de infância, que durou umas semanas, e não o génesis da normalidade em que ele vai viver como adulto.

 

02
Out21

O discreto dia da liberdade

João Miguel Almeida

Ontem, dia oficial de mais uma etapa no levantamento de restrições à covid-19, jantei num restaurante em Carnide. Estava curioso de saber até que ponto seria percetível um novo «clima de liberdade». Foi pouco percetível que estamos a entrar numa nova fase. Provavelmente a sensação seria diferente se tivesse ido a uma discoteca. Nos restaurantes de Carnide, as continuidades eram mais visíveis do que a mudança. A reação social e política à ameaça de uma pandemia mudou de forma abrupta e violenta a nossa vida e o «regresso à normalidade», ou a invenção de uma «nova normalidade» é lento.

A esplanada não estava cheia e no primeiro andar do restaurante éramos o único grupo. Os empregados usavam todos máscaras – apesar de já não serem obrigatórias – e a maior parte dos clientes também usava máscara e só as tirava para comer. Provavelmente, as pessoas nem se deram ao trabalho de verificar se as máscaras continuavam a ser obrigatórias em restaurantes. Não se perde um hábito que nos convencemos de que nos protege de um dia para o outro.

A grande diferença introduzida nos restaurantes desde ontem é que deixou de haver limites a grupos. O nosso era constituído por doze pessoas. Não é um pormenor de somenos. Vivemos numa sociedade em que a narrativa religiosa mais difundida tem um marco fundamental na última ceia, na qual teriam estado presentes treze pessoas. Ter uma lei a proibir a constituição de um grupo desta dimensão, por razões de segurança, é uma violência simbólica e psicológica.

Entre o regresso de hábitos antigos e a interiorização de novos, vamos aprendendo a viver num mundo pós-covid-19. E esperamos que este processo seja irreversível.

 

 

01
Out21

Voar num mundo covid-19

João Miguel Almeida

Esta semana voei pela primeira num avião desde o início da pandemia covid-19. Fui a um congresso em Espanha, quebrando um ciclo de estranhos encontros e reencontros via zoom. A sensação foi de um regresso quase perfeito à normalidade perdida.

O «quase» aí está para nos lembrar de um passado que teima em continuar presente e ameaça ser futuro. O mais aborrecido do «quase» são as saídas e entradas do avião «por filas», processo que não evita a proximidade entre passageiros no estreito corredor do avião e o torna muito mais lento.

Estes processos têm sempre o seu momento de incongruência cómica. Deu-me vontade de rir quando, após uma chamada criteriosa, a conta gotas, de grupos especiais de passageiros e de algumas filas, foram chamados os passageiros «entre a fila 15 e 30», anulando num passe de mágica o prudente distanciamento entre pessoas que, como se fossem atraídas pelo íman da voz, formaram rapidamente uma massa condensada de corpos.

As viagens de avião foram enriquecidas com o ritual da «toallita hidroalcohólica», distribuída à entrada, como se fosse uma bênção. O passageiro deve recebê-la, agradecido, usá-la para desinfetar as mãos e entregar os resíduos a um hospedeiro que passa com um cesto. São um fraco substituto da comida, das bebidas e dos jornais que eram distribuídos, gratuitamente ou a pagar, antes da covid-19 e da crise na aviação que levou a brutais cortes de despesas.

Quanto à burocracia da viagem propriamente dita, foi carregada com o QR e o formulário de saúde exigido, respetivamente, pelas autoridades de saúde espanholas e portuguesas.

Às inovações curiosas é acrescentado o procedimento já habitual do uso de máscara. A dúvida sobre as circunstâncias em que o uso é obrigatório não são apenas dos estrangeiros. Os próprios espanhóis têm uma noção vaga das regras em vigor no local em que se encontram, pois, dizem, as regras estão sempre a mudar e mudam de autonomia para autonomia.

Apesar dos «quase», o regresso a um aspeto da normalidade perdida teve um sabor a liberdade reconquistada.

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