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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

16
Mar21

Um ano de blogue

João Miguel Almeida

Comecei a escrever este blogue há exatamente um ano, com um título improvisado, movido por um sentimento de urgência de escrever para processar uma avalanche de informações contraditórias, emoções, acontecimentos e mudanças da vida quotidiana de todos. Estávamos a entrar no primeiro confinamento e pouco se sabia da covid-19. A margem de manobra para as teorias da conspiração e as atitudes negacionistas era gigantesca. Não tinha nenhuma teoria sobre o que estava a acontecer nem receita para evitar o desastre. Criticava as teorias e as receitas que me pareciam perigosas, partilhava as ideias que me pareciam animadoras. Um ano depois continuo a não saber muito sobre o que se está a passar. E desconfio de quem diz ter muitas certezas sobre o que está a acontecer.

Sabemos muito pouco sobre este vírus – o que é, donde veio e, principalmente, não sabemos o que será. Nem podemos excluir a hipótese de o vírus ter sido criado em laboratório e de um acidente estar na origem da pandemia. Duas coisas penso que é possível afirmar: primeiro, esta pandemia não é apenas uma gripe mais assanhada; segundo o confinamento é devastador para a economia e a saúde mental, é uma solução de último recurso, mas dá resultados na diminuição do número de novos casos, mortes e internados, incluindo em cuidados intensivos.  

Ao longo de um ano este blogue tornou-se um repositório de comentários, imagens e vídeos sobre o modo como os portugueses estavam a viver a pandemia e a pensar sobre ela. Não tem intenção de ser muito completo. Durante alguns tempos assumi mesmo a fadiga de escrever sobre a pandemia. Mas a covid-19 não se fatigou de nós. Ela continua aí, esperemos que não por muito mais tempo, esperemos que nunca mais de um modo descontrolado.

Da quase centena de textos que escrevi neste blogue, alguns merecerão ser relidos quando a covid-19 já fizer parte de um passado suficientemente distante para o podermos revisitar com curiosidade e alívio – as crónicas dos nossos dias atormentados, do humor que nos ajudou a passar as horas, dos sinais de esperança, dos momentos, apesar de tudo, felizes.

 

 

11
Mar21

Cansaço do ensino à distância

João Miguel Almeida

O anúncio de que na próxima semana as crianças do primeiro ciclo já podem voltar à escola, chega num momento em que o cansaço do ensino à distância está instalado.

Tanto eu como o meu filho estamos numa situação de relativo privilégio. Durante o primeiro confinamento o meu filho tinha oito anos, ou seja, já tinha autonomia suficiente para não exigir um acompanhamento contínuo, mas ainda gostava de estar com os pais. Apenas um ano depois não mudou assim tanto, mas deu mais sinais de impaciência e aborrecimento do que da primeira vez. Está a crescer.

O trabalho escolar é síncrono e assíncrono, cada um com os seus problemas próprios. Os problemas habituais das aulas  - os miúdos falarem ao mesmo tempo e atropelarem-se uns aos outros, são reinventados e potenciados online, exigindo outro tipo de intervenção do professor. No caso concreto do meu filho, a professora teve de enviar emails de advertência a alguns pais e ameaçar a expulsão das aulas online, marcando falta, a alguns alunos. Deu resultado.

Além dos problemas de ruído que podem afetar tanto os miúdos como os pais que estejam em teletrabalho na mesma divisão da sala, há situações de exasperação relativas ao trabalho escolar assíncrono. Alguns pais desesperaram ao verem-se obrigados a submeterem num padlet meia-dúzia de vezes o trabalho do filho para verificarem que, outras tantas vezes, o trabalho desaparecia misteriosamente. O problema era técnico. Além destes problemas que parecem fora do alcance de pais e professores, alguns miúdos apagaram trabalhos de colegas, com uma atitude que não é de hoje, mas com uma capacidade de perturbar outros miúdos e respetivos pais sem precedentes.

Todas estas questões que desgastam famílias com pais em teletrabalho e capacidade para lidar com novas tecnologias adquirem uma dimensão esmagadora em famílias com pais ausentes e/ou sem capacidade para ajudar os filhos.

Após esta experiência mais ou menos traumática todos nós devíamos dar mais valor às aulas presenciais em contexto escolar.

 

 

 

 

02
Mar21

A covid-19 como fado

João Miguel Almeida

Não foi espalhado por Deus

Nem talvez pelo diabo

Este vírus maldito

Nosso triste fado.

 

Este inimigo inerte

Corre entre amigos

Ferindo o corpo

Chamando a morte.

 

Estes vírus invisíveis

Cavam um abismo

Entre mim e ti

Roubam-nos abraços.

 

Levam-nos relações

Brutais como borracha

Apagando o sol e as flores

Em desenhos de crianças.

 

Pior que a doença

São as almas atormentadas

As infâncias acabrunhadas

As vidas confinadas.

 

Não foi espalhado por Deus

Nem talvez pelo diabo

Este vírus maldito

Nosso triste fado.

01
Fev21

O que correu mal na gestão da pandemia em janeiro?

João Miguel Almeida

O Observador publica um artigo com o ponto da situação de tudo o que correu mal no combate à pandemia em janeiro deste ano (ver aqui). É um bom artigo e estou à vontade para escrevê-lo porque não sou fã de O Observador. 

A principal conclusão que eu retiro do artigo é que a relação entre cientistas e políticos devia ser diferente em Portugal e seguir os moldes do Reino Unido: o aconselhamento científico ao governo devia ser realizado por um órgão responsável pela síntese do conhecimento científico acerca da evolução da pandemia e elaboração de recomendações ao governo, que seriam divulgadas.

Tal como aconteceu no Reino Unido, é muito provável que em Portugal houvesse critérios políticos na nomeação dos cientistas para esse órgão e que cientistas contestatários da política de saúde seguida formassem um órgão alternativo. Mas isso permitiria aos jornalistas e aos cidadãos preocupados comparar os diferentes relatórios científicos e as recomendações científicas com a ação política. 

O artigo também aponta uma falha na política do governo que considero pertinente: deviam ter sido colocadas restrições às viagens entre Portugal e o Reino Unido antes e durante o período do Natal. O assunto da pandemia é demasiado sério - e diz respeito a todos. Há especialistas e leigos com opiniões. Não se pode fugir a esta dicotomia nem desvalorizar as opiniões dos leigos, pois são a base de uma democracia. Deve-se é organizar a divulgação do conhecimento científico, das recomendações científicas e das ações políticas de modo a permitir que essas opiniões sejam fundamentadas. Caso contrário, andamos todos a mandar umas bocas e a alimentar o caos informativo.

 

26
Jan21

À beira da medicina da catástrofe

João Miguel Almeida

A 28 de outubro de 2020 o médico Gustavo Carona já tinha dito o fundamental sobre a pandemia covid-19. Vale a pena ouvi-lo agora e sublinhar que esta pandemia não é como a outras e que desacreditar as instituições responsáveis pela saúde é abrir o caminho para o caos.

No vídeo, o médico explica o que é a medicina de catástrofe, que é justamente a medicina com que podemos ter de contar daqui a muito pouco tempo.

«A última medida será o confinamento». É aqui que estamos.

 

 

25
Jan21

Um testemunho da linha da frente da guerra contra a covid-19

João Miguel Almeida

 

O testemunho do médico Gustavo Carona no programa que o Bruno Nogueira tem mantido no Instagram, «Como é que o Bicho Mexe», vale a pena ser ouvido na íntegra.

«Como é que o Bicho Mexe» tornou-se um balão de oxigénio para muita gente nestes tempos de pandemia, confinamentos e depressões. É um programa de entretenimento que vai sendo improvisado ao longo da noite, com monólogos do Bruno Nogueira, diálogos com convidados e interações com o público. Às vezes tem piada, outras nem por isso. Os 54 minutos do depoimento de Gustavo Carona não têm piada nenhuma, mas são serviço público prestado numa conta privada do Instagram. É indispensável ouvir para perceber como é a vida dos profissionais de saúde na linha da frente no combate à covid-19, o que lhes devemos e o pouco que podemos fazer em tempos destes, em que no entanto a multiplicação de pequenas ações pode ter grandes efeitos na minimização da catástrofe que já está em curso.

24
Jan21

Votar em tempos de pandemia

João Miguel Almeida

Votei a meio da manhã, na escola do Lumiar.

Evitei o voto antecipado porque estimei que, ao contrário do que muitos pensavam, não teria menor afluência e não seria mais seguro. Viu-se que tinha razão.

Ponderei votar às oito da manhã, para evitar as filas. Fui avisado de que, no caso de alguém da mesa de voto ter faltado, os primeiros votantes a aparecer podiam ser requisitados para substituir a pessoa em falta. Sorri ao imaginar a situação kafkiana de alguém que acorda de manhã cedíssimo para evitar filas, porque tem pavor à covid-19, e acaba por passar o dia todo a trabalhar na mesa de voto. Como tinha outros planos para o dia de hoje, decidi não me pôr a jeito para me ver envolvido numa situação dessas. Escrito isto, tiro o chapéu a quem dedica o dia de hoje ao importante trabalho cívico que permite aos portugueses votarem.

Quando fui votar havia uma razoável afluência às urnas e todas as pessoas usavam máscaras. À entrada da escola, fui avisado de que a minha secção de voto era a que tinha mais afluência e tive de aguardar algum tempo numa fila no exterior. Da fila exterior passei para uma fila interior, que subia do rés-do-chão para o primeiro andar. O ato de votar foi rápido.

Ficou-me a impressão de civismo dos votantes, de empenho das pessoas responsáveis pelos procedimentos eleitorais e de afluência às urnas. É certo que esta última perceção pode distorcer a realidade, pois as medidas de segurança aumentam artificialmente as filas.

Logo à noite veremos os resultados do ato eleitoral.

 

23
Jan21

Para agora recordar

João Miguel Almeida

Agora que se tornou óbvio que se deu um descontrolo da pandemia na sequência de um relaxamento de medidas governamentais e de um baixar da guarda de muitas pessoas no Natal, é preciso lembrar que as responsabilidades pelo descambar da pandemia não podem ser só divididas entre um governo demasiado complacente e cidadãos demasiado inconscientes. Cientistas, jornalistas, influenciadores e políticos, nomeadamente André Ventura e o Chega, contribuíram ativamente para uma espécie de contracultura que banalizou a pandemia, incutiu falsas esperanças, confundiu a prudência dos poderes públicos com intenções opressivas e alimentaram teorias da conspiração.

É claro que é injusto meter cientistas a sério, políticos demagógicos e maluquinhos da conspiração no mesmo saco. Mas estes «strange bedfellows» convenceram cidadãos ignorantes, incautos ou demasiado autoconfiantes e «wishful thinking» a relativizar as recomendações de médicos, autoridades sanitárias e govenantes.

Lembro, por exemplo, que em outubro de 2020 um grupo de cientistas apostava na imunidade populacional como forma de combater a pandemia. Gabriela Gomes, uma epidemiologista portuguesa, anunciava que a imunidade populacional estava prestes a ser atingida e não era expectável um crescimento descontrolado da doença (ver aqui). Em entrevista a Miguel Sousa Tavares na televisão, Gabriela Gomes mostrou-se particularmente otimista em relação à população portuguesa, que teria particularidades biológicas que lhe permitiram alcançar a imunidade mais cedo do que, por exemplo, a população do Reino Unido. Antes do final de 2020, haveria imunidade populacional em Portugal contra a covid-19. Eu próprio quis acreditar nas teorias de Gabriela Gomes. Felizmente, o meu otimismo não me levou a baixar a guarda.

António Costa cometeu um erro político ao confiar demasiado no bom senso dos portugueses no Natal. Mas o negacionismo de André Ventura e do Chega estiveram para lá do erro político – promoveram ativamente comportamentos favoráveis ao crescimento da pandemia.

Nas vésperas de eleições presidenciais, é importante imaginar como seria gerir uma pandemia destas com André Ventura como Presidente da República e um governo dependente do suporte parlamentar do Chega – ou até com um ministro deste partido, quem sabe como ministro da Saúde.

Espero que o bom senso que muitos deixaram fugir no Natal, comece a regressar.

 

22
Jan21

O regresso do medo

João Miguel Almeida

Uma semana depois do início do confinamento ligeiro, recebido por uns num estado blasé, embora não necessariamente descuidado, e por outros com uma atitude de boicote ativo, entrámos num confinamento pesado. As medidas são mais duras e a emoção agora dominante já não é a fadiga ou a irritação, mas o medo. É uma emoção forte e com a sua utilidade, o medo. Foi essa emoção, ou mesmo o pânico, que esteve na origem do primeiro confinamento. Muitas pessoas começaram a fechar-se em casa, mesmo antes do governo decretar o confinamento; a retirar os filhos das escolas mesmo antes do governo fechar as escolas.

Os números em Portugal são cada vez mais assustadores. Além dos números, há as histórias de familiares, amigos, conhecidos que adoeceram. No início da pandemia havia quem pensasse que tudo não passava de uma conspiração, pois não conhecia ninguém com covid-19. Agora, basta passar, por exemplo, frente à entrada do Instituto Ricardo Jorge para observar a caudalosa fila de pessoas à espera de fazerem um teste. Poucas serão as pessoas que, no último ano, não estiveram com alguém que já esteve em risco.

As notícias, mesmo comunicadas sobriamente, não desmentem o medo. A ciência deu-nos a vacinação que prossegue a bom ritmo, mas um ritmo bom, em tempos normais, é extraordinariamente lento em tempos de pandemia. Os cientistas já divulgaram que a nova estirpe britânica, a tal que está na origem de vinte por cento dos casos de covid-19 em Portugal, além de ser mais contagiosa é trinta por cento mais mortal.

As ruas estão muito mais desertas do que há uma semana. Quando se passava frente a uma escola havia sempre animação. Agora as escolas estão fechadas, a lembrar que os alunos também estarão fechados, nas suas casas, eventualmente frente a um ecrã.

É difícil e talvez até seja inconveniente eliminar o medo quando nos encontramos numa situação extremamente perigosa. O importante é controlar o medo, só nessa condição nos pode ser útil. E construir um lugar para outras emoções mais positivas.

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