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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

06
Jun20

Os estragos sociais da covid-19

João Miguel Almeida

O senhor António (nome fictício) tem a quarta classe, vive com a mulher e a filha num bairro social e trabalha num talho.

A filha, de nove anos, no quarto ano, desde o início do confinamento que não sai de casa.

Num bairro social não há situações de meio termo – ou se faz a vida do bairro com todas as portas abertas ao vírus ou se fecham todas as portas.

Para o ano a criança devia entrar no quinto ano e sair da escola do bairro social. Este é um ano marcante. As aulas online exasperam a família. Os pais tentam ajudá-la e não conseguem. Têm ambos a quarta classe. Mesmo eu e a minha mulher, ambos doutorados, quando tentamos ajudar o nosso filho no terceiro ano somos surpreendidos por mudanças de classificação e de métodos. Mas conseguimos pesquisar e perceber como ajudá-lo.

A criança no bairro social tem de preencher Quiz e escreve as repostas todas certas, mas o sistema informático dá todas erradas porque ela introduziu em cada resposta uma palavra que não é reconhecida.

A covid-19 está a agravar todas as doenças sociais já existentes.

30
Mai20

Argumentos contra ideias zombies

João Miguel Almeida

O último livro de Paul Krugman tem como título Arguing With Zombie Ideas. Publicado no início do ano, foi escrito antes da crise provocada pelo SARS CoV-2.

No entanto, as últimas entrevistas e artigos do economista norte-americano apontam no sentido de que a negação do problema da atual pandemia é mais uma «ideia zombie», uma ideia que devia estar morta mas insiste em andar por aí a fazer estragos.

Entre as ideias «zombies» atacadas com argumentos no livro estão as de que os impostos sobre os ricos têm efeitos nefastos e as da negação climática.

Sobre a atual crise da covid-19, ainda escreveu relativamente pouco, mas do que escreveu há duas ideias a reter (infelizmente em textos que não se encontram em acesso aberto na internet): a de que a de que a prioridade no combate à crise da covid-19 deve ser evitar que morram pessoas; e a de que, sendo esta crise um misto de recessão e de desastre natural, a intervenção estatal devia focar-se em ajudar as pessoas a manter um nível de consumo adequado (ver aqui). Ao focar as ajudas na preservação de níveis consumo, os Estados também ajudam, indiretamente, as empresas e a conservação de empregos.

Convém acrescentar que haveria toda a vantagem em que o consumo fosse dirigido para produtos ecologicamente sustentáveis. E que os Estados também podiam, numa situação destas, contribuir para reorientar alguns consumos para produtos com menor impacto ambiental.

 

23
Mai20

Aviões em terra

João Miguel Almeida

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Tenho aproveitado uma parte das manhãs destes solarengos dias de desconfinamento para passear na Alta de Lisboa, com vista para o aeroporto da Portela. Nos meus passeios, é raro ver um avião a aterrar ou a levantar voo.

“Gaivotas em terra, tempestade no mar”, é um ditado português.

Os aviões em terra são uma imagem da tempestade interior em que vivemos, das limitações físicas impostas pela pandemia.

Fomos, literalmente, levados a pôr mais os “pés na terra”, outra expressão portuguesa, que apela a que prestemos mais atenção ao mundo que nos rodeia.

Mas ainda não é claro se a imagem dos aviões em terra nos abre as portas para um mundo mais consciente e responsável ou para uma tempestade de potencial destrutivo inimaginável.

É possível que, além de nos tornarmos capazes de dar uma resposta de saúde pública à altura da pandemia, nos tornemos mais consciente de que pandemias deste tipo são potenciadas pela destruição de habitats naturais. E que a prevenção de novos surtos de epidemias de vírus que passam de animais selvagens para seres humanos implica a preservação dos habitats naturais; a promoção de práticas económicas sustentáveis; a educação e novas oportunidades de trabalho às populações que vivem na fronteira com habitats naturais.

Também é possível que nos deixemos intoxicar por teorias da conspiração e pela guerra entre os Estados Unidos e a China. Além da “guerra” contra o SARS-CoV-2 há muitas outras guerras políticas e económicas em curso.

Ainda melhor do que termos mais aviões no ar é termos mais os pés na terra.

 

 

20
Mai20

As origens da pandemia

João Miguel Almeida

As origens concretas da pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2 ainda não se encontram completamente esclarecidas e estão envoltas em controvérsia científica é até em teorias da conspiração.

A explicação atualmente mais aceite pela comunidade científica é que a pandemia na origem da covid-19 é devida a uma transferência de um vírus de animais para seres humanos. É esta a explicação subscrita como a mais provável por um grupo de cientistas que em março escreveu uma carta à revista Nature. Nessa carta os cientistas admitem dois cenários para a constituição do vírus especialmente forte SARS CoV-2: que o vírus se tenha fortalecido por seleção natural antes ou após a transferência de animal para ser humano.

Está por provar que essa contaminação se tenha dado nos chamados “wet markets” asiáticos, mercados onde são vendidos e abatidos animais selvagens em grande proximidade com os seres humanos, favorecendo o contágio.

Tem sido também apresentada a explicação alternativa de que na origem do vírus que causa a covid-19 estaria uma manipulação genética em laboratório. Mas cientistas credenciados que estudaram o vírus declararam que não tinham encontrado nenhuma prova de manipulação genética.

Em concreto, o laboratório de Wuhan foi apontado como uma possível fonte de contaminação, por acidente. Este laboratório dedica-se à investigação sobre o coronavírus, tendo dado um grande contributo científico para estudá-lo. Foi uma cientista deste laboratório que descobriu a ligação entre o vírus em morcegos e a epidemia de SARS em 2003. Além de não estar provado que a fonte de contaminação é o laboratório de Wuhan, a Newsweek revelou que as pesquisas neste laboratório são financiadas em grande parte pelos Estados Unidos (ver aqui). O que sabemos sobre a investigação científica no laboratório de Wuhan é que tem estudado os coronavírus para combater melhor as epidemias que podem causar.

No entanto, a ideia da pandemia ter a sua origem em Wuhan tem sido questionada. Neste momento não podemos dá-la como certa.

Para além de todas as incertezas eu penso que devemos reter duas ideias principais:

1 – o consenso científico é que a origem da pandemia, ou de pandemias como a atual é a transferência de vírus de animais para seres humanos;

2 – há determinadas condições ambientais e sociais que favorecem esse contágio.

A explicação alternativa de que teria havido um contágio acidental a partir de um laboratório em nada altera as duas ideias acima expostas e a questão de fundo que está na origem da pandemia. Dito de outro modo: se não fosse possível a transferência de vírus de animais para seres humanos estar na origem da pandemia, não haveria investigação sobre o problema em laboratórios nem eventuais acidentes que podem, por sua vez causar epidemias.

Além destas explicações, existem ainda várias teorias da conspiração. Essas não vou levá-las em conta porque, em primeiro lugar, não estão provadas e em segundo lugar, de nada adiantam. Se as teorias da conspiração estiverem todas erradas, continuamos a ter de enfrentar pandemias. Se alguma estiver certa, acrescenta apenas mais um problema aos problemas que já temos.

A transferência de um vírus de um animal para uma pessoa é um problema biológico ou médico. A transformação de uma doença numa pandemia é um problema de saúde pública, é um problema social e político.

Em meu entender, todos os cidadãos deviam tentar perceber como é que este problema surgiu e como é que podemos resolvê-lo.

Mas não devíamos pensar neste problema que tem uma dimensão política deixando-nos levar pelo «jogo de culpabilização» alimentado por determinados governos em relação a outros.

O que li sobre o assunto leva-me a pensar que, além de podermos identificar causas específicas, concretas para esta pandemia, há condições ambientais e sociais que a favorecem e que se não forem resolvidas podem dar origem a outras pandemias.

O que é que nós sabemos?

Sabemos que há um problema de destruição de habitats naturais e de desequilíbrios ambientais que não existe só na China, donde terá vindo o SARS CoV-2, mas um pouco por todo o planeta (ver aqui). A deflorestação tem levado animais selvagens a migrar dos seus ambientes naturais para ambientes humanos onde espalham novas doenças. O vírus que causa a covid-19 é transmitido por morcegos e a probabilidade de transmissão é maior em regiões deflorestadas, pântanos secos para cultivo de terras, minas e projetos residenciais. Os riscos de contágio são baixos quando os animais vivem nos seus nichos em habitats naturais mas aumentam em regiões habitadas por humanos. Este princípio geral aplica-se particularmente a morcegos que se alimentam de insetos os quais, nas zonas habitadas se concentram à volta da luz de lâmpadas ou da fruta dos pomares. Uma forma de prevenir pandemias seria proteger os habitats naturais e educar as populações locais para conseguirem lidar com surtos epidémicos e evitar que estes se transformassem em pandemias.

Percebemos que esta questão de fundo é mais relevante do que qualquer teoria da conspiração ou explicação acidental se tivermos em conta que, há dois anos, vários cientistas já tinham previsto o aparecimento de um novo coronavírus nas regiões da Ásia sujeitas a deflorestação ou outras pressões ambientais.

Além das origens concretas da covid-19, que ainda não se encontram completamente esclarecidas, há um contexto de destruição de habitats naturais, de migrações do campo para cidades gigantescas com poucas condições de salubridade, que potencia epidemias como as da covid-19.

A pandemia não é só um problema de saúde, é também um problema social e para a combatermos devemos tentar perceber não só a sua origem biológica, mas também as condições sociais que favoreceram o seu aparecimento e expansão.

 

 

 

 

 

 

 

08
Mai20

Quem sente é filho de boa gente

João Miguel Almeida

Perante o ataque racista, a pretexto da pandemia da covid-19, de André Ventura, Quaresma disse tudo o que havia a dizer. (ver as últimas declarações aqui).

Não houve troca de galhardetes – André Ventura atacou e sofreu uma derrota vergonhosa.

André Ventura é licenciado e doutorado em Direito, andou num seminário católico e fala na assembleia da república, de fato e gravata. Nada disto, mais a manipulação do medo e a demagogia, lhe permitiu ganhar o duelo verbal.

Quaresma é jogador de futebol, filho de pai cigano e mãe africana. Usa tatuagens e, quando vestiu a roupa da equipa de futebol da seleção nacional foi para a honrar. É católico mas não cita o nome de Deus em vão. Não tem títulos académicos, não diz que representa o povo. Disse, simplesmente: sou cem por cento português. Como podia ter dito: sou cem por cento humano. Mostrou ser tão brilhante no verbo como nos relvados, apesar de não perder tempo e treinar o verbo nem fazer do verbo a sua profissão.

Disse muito com pouco.

A verborreia e indignação moralista de André Ventura não disfarçam uma profunda miséria moral que alimenta manobras de intimidação e mentiras.

Em tempos de crise precisamos de exemplos como o de Quaresma.

03
Mai20

Mais valia apanhar um TGV

João Miguel Almeida

As companhias aéreas não querem lugares vazios nos aviões (ver aqui) e essa é mais uma razão para gostar de comboios e voltar a pensar na questão dos transportes internacionais de passageiros em Portugal.

Ainda há poucas semanas era consensual que o aeroporto estava sobrelotado e era necessário finalmente identificar o sítio onde se ia construir o segundo aeroporto que servisse a área de Lisboa.

Com a covid-19, de um momento para o outro, o tráfego aéreo caiu abruptamente. E a questão é que me parece difícil prever como é que será o regresso a uma «normalidade». Algumas companhias aéreas já foram à falência. Será que o próprio conceito de voo «low cost» é compatível com a segurança dos passageiros num contexto de pandemia que não sabemos quando é que acabará? Já li declarações claras no sentido de negar a possibilidade de «distanciamento social» no interior dos aviões. Passageiros com máscaras sim, lugares vazios não.

Nos comboios é sempre mais fácil conseguir «distanciamento social» do que nos aviões – é só acrescentar uma carruagem. Além disso, os comboios são mais «amigos do ambiente».

Mas em Portugal, quem não pode apanhar um avião para viajar para outro país da Europa pode encarar um comboio como uma boa alternativa? Não pode. Ir de comboio até Madrid é uma experiência penosa.

É altura de voltar a pensar em ter uma ligação de TGV à Europa. Parecendo dar razão a quem acha que em Portugal tudo se pensa em termos de «oito ou oitenta», passámos da ideia de ter estações de TGV espalhadas por todo o país, para a rejeição do TGV.

Há quem argumente que podemos tornar a ferrovia mais rápida sem gastar demasiado num TGV. Mas o TGV já não é a solução nem mais rápida nem mais cara – essa solução agora seria o hyperloop.

Embora isso não seja dito publicamente, por vezes tenho a impressão de que houve em relação ao TGV uma atitude de «ou comem todos ou não há nada para ninguém», Por mim, que vivo em Lisboa, não me importava de, se não pudesse, ou não quisesse, por não considerar seguro, apanhar um avião para outro destino da Europa, apanhar um alfa pendular para o Porto, Coimbra, ou Faro e aí seguir de TGV para outro destino europeu qualquer.

É claro que um hyperloop seria ainda melhor.

A crise da covid-19, que não sabemos quando é que irá acabar, vai obrigar-nos a pensar outra vez em muitas questões.

 

02
Mai20

Desconfinar é preciso…e difícil

João Miguel Almeida

A discussão acerca dos efeitos do confinamento começou logo que foi decretado e não vai acabar tão cedo. Aos críticos do confinamento é importante lembrar que ele foi racionalmente justificado num período de grande incerteza acerca do SARS-CoV2, em que os riscos da pandemia já estavam mediatizados, o medo estava instalado na população e muitas pessoas começavam, por sua própria iniciativa, a fechar-se em casa. O confinamento permitiu, pelo menos, dar à maior parte de nós um sentimento de proteção enquanto o Serviço Nacional de Saúde reforçava a sua capacidade de resposta e os procedimentos de segurança iam sendo assimilados.

Se o período de confinamento foi razoavelmente gerido em Portugal, o desconfinamento tem riscos psicológicos, económicos e políticos. Luís Salgado de Matos apresenta aqui algumas propostas para o desconfinamento.

As histórias que tenho ouvido são preocupantes. É mais fácil tirar as pessoas de casa do que o medo da cabeça das pessoas. A economia e a sociedade vão ressentir-se e não faltam demagogos à espera da sua oportunidade política.

O gestor de uma pequena e média empresa contou-me a seguinte história: a sua empresa tem um trabalho suspenso em Espanha e, após o fim do confinamento primeiro em Espanha e depois em Portugal, é preciso concluí-lo. Cinco trabalhadores têm de se deslocar de carro a Espanha para a empresa cumprir o contrato e pelo menos um deles não quer ir por causa da covid-19. O gestor é responsável por não ter cinco carros disponíveis para transportar cinco trabalhadores? Um trabalhador pode recusar-se a trabalhar por ter de partilhar um carro com quatro colegas quando, durante o período de confinamento houve famílias com cinco pessoas ou mais que estiveram fechadas em casa? O governo já esclareceu algumas questões, mas outras, como estas, penso que continuam por esclarecer. Talvez uma solução fosse incentivar e promover a realização de testes à covid-19 que dessem confiança aos trabalhadores no regresso ao trabalho. Seria generalizar o que já está anunciado para os jogadores de futebol.

Seja qual for o «novo normal» que nos espera é preciso pôr de novo a economia a funcionar. Viver é correr riscos e o SARS CoV-2 pode não ser o pior.

01
Mai20

Confinamento ou contaminação voluntária?

João Miguel Almeida

Ontem, na entrevista à RTP1, António Costa defendeu a estratégia de confinamento que o governo tem seguido dos críticos que defendem a proteção dos grupos de risco e a contaminação voluntária da maioria para alcançar a imunidade de grupo.

O argumento do primeiro-ministro foi simples: não seria possível mobilizar os portugueses para uma contaminação voluntária. Antes de ser decretado o estado de emergência muitos portugueses já começaram a ficar em casa. Implicitamente António Costa disse que a política de confinamento veio «legalizar» e aplicar de uma forma sistemática e consequente as medidas que muitos portugueses queriam que fossem aplicadas.

Além deste argumento, há mais dois contra a estratégia da contaminação voluntária: em caso de contaminação voluntária havia o risco mais do que certo do serviço nacional de saúde entrar em rutura porque não estava preparado para tratar uma avalanche de casos de covid-19; há ainda muito desconhecimento acerca da covid-19 – já têm sido assinaladas mortes ou estados muito graves de pessoas que não pertenciam a grupos de risco e não se sabe exatamente quais são as sequelas, nem durante quanto tempo dura a imunidade adquirida.

É claro que se a situação se prolongar por mais de um ano, todos estes fatores podem mudar: as pessoas podem fartar-se de estar confinadas (porque a períodos de «desconfinamento» podem seguir-se novos períodos de confinamento) e desempregadas, ou com baixos salários e preferir o risco da doença ao risco da pobreza; o serviço nacional de saúde pode reforçar ainda mais a sua capacidade de resposta à covid-19; o vírus pode ser melhor conhecido e os riscos de contaminação parecerem menores.

Num cenário destes, haverá mais vozes a defender a contaminação voluntária?

29
Abr20

Jogando xadrez com a Morte

João Miguel Almeida

Max von Sydow morreu a 8 de março de 2020, em plena crise da covid-19. Era um dos atores preferidos de Ingmar Bergman e ficou famoso pelo papel que desempenhou em O Sétimo Selo em que joga xadrez com a Morte, num combate desigual e traiçoeiro em que teima em acreditar na possibilidade de uma vitória final (ver um trecho do filme aqui).

Mesmo que a Morte não tivesse feito xeque mate a Max von Sydow em plena ofensiva em tantos tabuleiros, associaria muitas frases que vou ouvindo às imagens e à ficção de O Sétimo Selo. Graças Freitas, a diretora-geral da Saúde, já qualificou o vírus SARS-CoV-2 como «muito inteligente». Do lado humano, não se pode dizer o mesmo. Há «idiotas úteis», como Donald Trump e Bolsonaro, que usam, ou não usam, o seu poder para fazer o jogo da Adversária.

Por vezes, ao ouvir o boletim informativo do Ministério da Saúde, tenho a impressão de estar a seguir as jogadas, os avanços e recuos, de uma partida perigosa. Os casos recuperados já são bem mais do que os óbitos: 1470 contra 973. Ao que é que equivale este sinal positivo? Dois ou três peões capturados? O indicador do contágio de uma epidemia, o Ro, depois de ter estabilizado durante várias semanas por volta de 0,9 este fim-de-semana alcançou o 1,04, como pode ver aqui.

É uma mudança simbólica: durante algumas semanas nem todos os infetados contagiavam outra pessoa e agora, em média, um infetado contagia, pelo menos, outra pessoa. Foi atravessada a fronteira entre a esperança na diminuição do contágio e o temor de que a epidemia recrudesça. Como traduzir estes indicadores em imagens de um jogo de xadrez? Após um período de extrema atenção ao jogo, durante o fim-de-semana da Páscoa, distraímo-nos e a Adversária capturou-nos um bispo ou uma torre.

Neste jogo perigoso, tão pessoal como coletivo, não podemos baixar a guarda.

 

 

27
Abr20

A covid-19 também nos contagia com novas discriminações

João Miguel Almeida

aqui escrevi sobre a visão distópica do jornalista norte-americano especializado em temas de saúde pública, Donald G. MacNeil. Ele adverte-nos que nos próximos dois anos podemos viver num mundo em que há dois tipos de pessoas, com estilos de vida completamente diferentes: os imunes e os não imunes.

Mas no discurso de alguns políticos, e não me estou a referir a políticos de estilo populista, mas, por exemplo, à senhora de estilo tecnocrático que atualmente é Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já desponta a legitimação de discriminações devido à idade. José Leitão analisa a questão num artigo do Público que pode ler aqui.

É triste e inquietante que numa Europa que se tem destacado pelo combate a discriminações de caráter racial, de género, de orientação sexual, se introduza agora uma nova categoria – o idoso – cujos direitos são limitados. Após o «envelhecimento ativo» teríamos o «envelhecimento confinado». As pessoas com mais de setenta anos são muito diferentes, têm diferentes condições de saúde, responsabilidades, disponibilidades e motivações também diferentes. A imposição de um estilo de vida a pessoas de mais de setenta anos caracterizado pelo isolamento e pela segregação, baseada na construção de uma categoria social, é tão absurda como a segregação de pessoas por razões de género ou de etnia.

 

Durante esta pandemia aprendi que o conceito de «imunidade de grupo» nasceu num contexto histórico muito diferente dos cenários que agora são defendidos para travar a covid-19. Agora pretende-se que os jovens sejam «largados» na rua, intencionalmente, para se infetarem, resistirem à epidemia e protegerem, com os seus anticorpos, a comunidade. O conceito começou a ser aplicado porque, durante uma epidemia de varíola, os médicos verificaram que as pessoas mais velhas, que já tinham sido involuntariamente infetadas no passado, protegiam os mais novos.

Na incerteza atual sabemos que os recuperados da covid-19 adquirem imunidade, tanto os novos como os velhos que se ficassem confinados não beneficiariam em nada a comunidade por serem imunes. Não sabemos por quanto tempo essa imunidade é válida, nem que sequelas deixa a covid-19.

Não permitamos que o nosso desconhecimento sobre a pandemia seja usado para reforçar preconceitos e criar novas descriminações.

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