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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

23
Jan21

Para agora recordar

João Miguel Almeida

Agora que se tornou óbvio que se deu um descontrolo da pandemia na sequência de um relaxamento de medidas governamentais e de um baixar da guarda de muitas pessoas no Natal, é preciso lembrar que as responsabilidades pelo descambar da pandemia não podem ser só divididas entre um governo demasiado complacente e cidadãos demasiado inconscientes. Cientistas, jornalistas, influenciadores e políticos, nomeadamente André Ventura e o Chega, contribuíram ativamente para uma espécie de contracultura que banalizou a pandemia, incutiu falsas esperanças, confundiu a prudência dos poderes públicos com intenções opressivas e alimentaram teorias da conspiração.

É claro que é injusto meter cientistas a sério, políticos demagógicos e maluquinhos da conspiração no mesmo saco. Mas estes «strange bedfellows» convenceram cidadãos ignorantes, incautos ou demasiado autoconfiantes e «wishful thinking» a relativizar as recomendações de médicos, autoridades sanitárias e govenantes.

Lembro, por exemplo, que em outubro de 2020 um grupo de cientistas apostava na imunidade populacional como forma de combater a pandemia. Gabriela Gomes, uma epidemiologista portuguesa, anunciava que a imunidade populacional estava prestes a ser atingida e não era expectável um crescimento descontrolado da doença (ver aqui). Em entrevista a Miguel Sousa Tavares na televisão, Gabriela Gomes mostrou-se particularmente otimista em relação à população portuguesa, que teria particularidades biológicas que lhe permitiram alcançar a imunidade mais cedo do que, por exemplo, a população do Reino Unido. Antes do final de 2020, haveria imunidade populacional em Portugal contra a covid-19. Eu próprio quis acreditar nas teorias de Gabriela Gomes. Felizmente, o meu otimismo não me levou a baixar a guarda.

António Costa cometeu um erro político ao confiar demasiado no bom senso dos portugueses no Natal. Mas o negacionismo de André Ventura e do Chega estiveram para lá do erro político – promoveram ativamente comportamentos favoráveis ao crescimento da pandemia.

Nas vésperas de eleições presidenciais, é importante imaginar como seria gerir uma pandemia destas com André Ventura como Presidente da República e um governo dependente do suporte parlamentar do Chega – ou até com um ministro deste partido, quem sabe como ministro da Saúde.

Espero que o bom senso que muitos deixaram fugir no Natal, comece a regressar.

 

22
Jan21

O regresso do medo

João Miguel Almeida

Uma semana depois do início do confinamento ligeiro, recebido por uns num estado blasé, embora não necessariamente descuidado, e por outros com uma atitude de boicote ativo, entrámos num confinamento pesado. As medidas são mais duras e a emoção agora dominante já não é a fadiga ou a irritação, mas o medo. É uma emoção forte e com a sua utilidade, o medo. Foi essa emoção, ou mesmo o pânico, que esteve na origem do primeiro confinamento. Muitas pessoas começaram a fechar-se em casa, mesmo antes do governo decretar o confinamento; a retirar os filhos das escolas mesmo antes do governo fechar as escolas.

Os números em Portugal são cada vez mais assustadores. Além dos números, há as histórias de familiares, amigos, conhecidos que adoeceram. No início da pandemia havia quem pensasse que tudo não passava de uma conspiração, pois não conhecia ninguém com covid-19. Agora, basta passar, por exemplo, frente à entrada do Instituto Ricardo Jorge para observar a caudalosa fila de pessoas à espera de fazerem um teste. Poucas serão as pessoas que, no último ano, não estiveram com alguém que já esteve em risco.

As notícias, mesmo comunicadas sobriamente, não desmentem o medo. A ciência deu-nos a vacinação que prossegue a bom ritmo, mas um ritmo bom, em tempos normais, é extraordinariamente lento em tempos de pandemia. Os cientistas já divulgaram que a nova estirpe britânica, a tal que está na origem de vinte por cento dos casos de covid-19 em Portugal, além de ser mais contagiosa é trinta por cento mais mortal.

As ruas estão muito mais desertas do que há uma semana. Quando se passava frente a uma escola havia sempre animação. Agora as escolas estão fechadas, a lembrar que os alunos também estarão fechados, nas suas casas, eventualmente frente a um ecrã.

É difícil e talvez até seja inconveniente eliminar o medo quando nos encontramos numa situação extremamente perigosa. O importante é controlar o medo, só nessa condição nos pode ser útil. E construir um lugar para outras emoções mais positivas.

20
Jan21

Quando o justo paga pelo pecador

João Miguel Almeida

A pandemia mostra tanto a relevância da ética como a inconsequência do moralismo. Mais do que nunca é preciso termos cuidado connosco e com os outros. Mais do que nunca se percebe como quem tem todo o cuidado pode ter o azar de apanhar covid-19 e quem foi completamente irresponsável pode ter a sorte de ficar incólume.

Em tempos de pandemia, o justo paga pelo pecador, com juros altíssimos: paga com a quebra de rendimentos e até com o desemprego; paga com a falta de saúde e até com a morte.

A justiça deve atuar para sancionar e prevenir atos irresponsáveis. Os políticos são avaliados pelas suas ações nos atos eleitorais. Mas nem a justiça nem a política chegam para nos salvar.

Nesta situação, ou nos condenamos juntos ou nos salvamos juntos. Os médicos tratam todos os doentes, sejam irresponsáveis ou azarados; fazem o que está ao seu alcance para prevenir a morte de qualquer pessoa. É a ética médica que nos deve inspirar nas nossas ações quotidianas, por mais banais que sejam ou nos pareçam.

Mais do que encontrar bodes expiatórios, interessa-nos escapar ao coronavírus.

19
Jan21

O maior erro do governo

João Miguel Almeida

Até agora, o maior erro do governo e do Presidente da República no combate à pandemia foi darem aos portugueses um crédito que não mereciam no Natal. Confiaram na sua responsabilidade e prudência e o resultado foi um desastre: record mundial de novos casos de covid-19, internamentos e urgências no limite, um número nunca visto de mortes causadas pela pandemia.

Hoje, depois dos ralhetes do primeiro-ministro e do Presidente da República, as novas restrições e a ameaça de ainda mais restrições, já se nota um menor trânsito. É triste perceber que muitos dos meus compatriotas só tomam juízo quando ganham medo ao pau.

Retrospetivamente, a legitimidade do primeiro confinamento é reforçada. Havia dúvidas sobre se tinha feito sentido um confinamento com resultados tão perniciosos para a economia, se o confinamento não devia ter sido mais curto, com menos restrições ou, pura e simplesmente, não devia ter havido confinamento. É claro que a necessidade ou eficácia de algumas medidas serão sempre discutíveis.

Mas os portugueses, após meses de convívio com o vírus, abriram-lhe as portas no Natal e, mesmo quando os indicadores negativos subiam em flecha, baixaram a guarda no primeiro fim-de-semana do segundo confinamento.

Como é que seria se, no início da pandemia, com menos informação e conhecimento científico sobre este coronavírus e mais espaço para teorias da conspiração e negacionistas, sem máscaras, sem álcool gel, sem procedimentos interiorizados, se tivesse dispensado o confinamento ou optado por um confinamento suave?

Apesar de todos os sinais tétricos é preciso alimentar a esperança. E fazer tudo para evitar adoecer no próximo mês.

 

15
Jan21

O confinamento do costume?

João Miguel Almeida

Esta quarta-feira de manhã entrei num café na rua, perto da minha casa, pensando que era uma despedida nas vésperas do confinamento. Fiquei a saber que o café não fecharia, ou não fecharia completamente. Hoje de manhã fui ao mesmo café, para saber como era. A porta estava aberta, com uma mesa a dividir o interior do exterior. Os clientes faziam o pedido à porta. A empregada ia buscar os bolos, ou o café, colocava-os num tabuleiro sobre a mesa. Os clientes serviam-se, pagavam e comiam na rua ou noutro local qualquer. A mercearia e os correios também estavam abertos, com novas regras.

Não nos podemos banhar duas vezes na água do mesmo rio, nem confinarmo-nos duas vezes com o mesmo estado de espírito. No ano passado, com números ínfimos de mortos e de infetados comparados com os atuais, as pessoas confinadas oscilavam entre o negacionismo e o alarmismo.

Um ano depois, o alarme, a revolta, a sensação de irrealidade que habitavam as pessoas confinadas ou resistentes ao confinamento cederam à fadiga, à resignação, à sensação de déjà vu.

Este não é um confinamento como o de há um ano – as escolas, as universidades, as pequenas empresas do comércio local, os dentistas continuam abertos. As pessoas já se habituaram a usar máscaras e álcool gel, mesmo que pensem que não resguardam ninguém de um azar.

Para muitos de nós, o confinamento tornou-se uma espécie de irritante costume sazonal, que se pode suportar com um mínimo de conforto. Desgraçadamente, para muitos outros o confinamento só vai agravar o mundo incómodo e sem horizontes em que vivem. É por isso que para combater os efeitos desta pandemia não basta uma política de saúde pública.

12
Jan21

Duas almofadas para o confinamento

João Miguel Almeida

Na segunda-feira desta semana fui ao Ikea e comprei duas almofadas, entre outros apetrechos a usar na guerra contra a covid-19. Já estão no sofá da sala. O Ikea estava bastante povoado, de pessoas silenciosas e mascaradas. Não me pareceram especialmente ansiosas.

O que tenho ouvido confirma a minha ideia de que a maior parte dos portugueses, ou, pelo menos, dos lisboetas e vizinhos, encara o segundo confinamento com resignação. Todo o espaço para o negacionismo e para as teorias da conspiração que havia durante o primeiro confinamento encolheu brutalmente. O confinamento não cura ninguém, mas impede o vírus de se espalhar, ou atrasa-o, e impede o sistema nacional de saúde de entrar em rutura. Alguns doentes escaparão à morte porque os médicos não tiveram de tomar a trágica decisão de dar os seus ventiladores a outros doentes.

Apesar dos números ameaçadores, seria pior entrarmos no segundo confinamento sem sabermos que alguns grupos de risco já estão a ser vacinados; ou sem sabermos que a União Europeia se comportaria melhor perante a crise da covid-19 do que se comportou durante a crise das dívidas soberanas.

A resignação só não existe em relação ao encerramento das escolas. Ter filhos em idade escolar em casa vai afetar negativamente o ensino, o trabalho e a saúde mental de muitas famílias. Esperemos que o governo não ouça só os especialistas em saúde, mas tenha também em conta os especialistas em educação, nas questões laborais, em psicologia social.

 

 

02
Jan21

O que podemos esperar da covid-19 este ano

João Miguel Almeida

Uma série de especialistas responderam a um inquérito sobre o que podemos esperar da covid-19 e acerca do modo como vai afetar a nossa vida em 2021 (ver aqui). Apesar das incertezas, das divergências de opiniões e de pelo menos uma das pessoas inquiridas já ter feito previsões que não resistiram ao teste da realidade, retenho das declarações algumas ideias que podem servir de bússola para a nossa vida em contexto de pandemia:

- não temos de esperar pela imunidade de grupo (que ainda vai demorar) para considerar a pandemia controlada. O importante é garantir que, em caso de surto, os mais vulneráveis estão protegidos e o aumento de casos confirmados não esgota a capacidade de resposta dos hospitais e, em particular das unidades de cuidados intensivos.

- não há razões para evitar as vacinas, pelo contrário, devemos apoiar a campanha de vacinação. Mas, apesar de não haver riscos de vacinação, ainda é cedo para saber exatamente qual é o seu impacto no combate à doença.

Em suma, temos razões para ter esperança, mas não para baixar a guarda.

31
Dez20

Que este blogue acabe depressa!

João Miguel Almeida

Um dos meus votos para 2021 é que a pandemia de covid-19 termine o mais rapidamente possível e, com ela, este blogue dedicado às nossas desventuras com um vírus que mata e mói.

Tornou-se um lugar comum escrever que 2020 foi um ano estranho. Trouxe com ele um vírus que espalhou o horror, a depressão e o luto. Aqueles para quem o ano não foi mau de todo têm dificuldade em admiti-lo. Um amigo meu, que não gosta nem de praia nem de Natal, acha que, se não tivesse morrido tanta gente, teria boas memórias deste ano. Conto-me no grupo com sorte, que não viu ninguém próximo a morrer ou a sofrer sequelas de covid-19. Aprendi as dificuldades de conciliar teletrabalho com telescola e descobri as vantagens de passar férias no Algarve num tempo abundante em lugares de estacionamento e mesas de restaurantes vazias devido à pandemia. O pior para mim nem foi o número de mortes, relativamente baixo se comparado com a mortalidade causada por outras doenças, mas todo o sofrimento físico e psicológico associado à covid-19.

Comecei a escrever este blogue para aprender o que se estava a passar, ensaiar algumas interpretações, discutir alguns argumentos. Com surpresa foi-me apercebendo de que estudiosos reconhecidos de epidemias falhavam clamorosamente nas suas teorias e previsões. Apesar de haver ainda muito a descobrir sobre o vírus SARS-CoV-2, e de eu ser um leigo, a informação disponível e testada permite-me ter uma ideia do que vai acontecer: entre 10 e 20 de janeiro vai haver um pico de casos confirmados; um mês depois haverá um pico de mortes.

Nesta guerra conta a covid-19, infelizmente, o general inverno, que derrotou Napoleão e Hitler, já se aliou ao inimigo. Portugal tem beneficiado do clima temperado. Basta ver como os jardins públicos são usados para as pessoas se encontrarem e conversarem ao ar livre, muitas delas com máscaras. O avanço do inverno vai retirar pessoas dos espaços públicos e remetê-las para espaços fechados, propiciando a expansão da pandemia.

A nossa melhor arma atual contra a covid-19 é a vacinação mas, antes de ter um efeito social significativo, passaremos dois ou três meses difíceis.

Sim, o que houve de sombrio e complicado em 2020 não vai desaparecer num passe de mágica. Mais uma razão para ter esperança e, como cantavam os Monty Phyton, olhar para o lado bom da vida.

 

 

26
Dez20

Peregrinações natalícias

João Miguel Almeida

Este ano uma boa parte do meu Natal consistiu em peregrinações a vários núcleos familiares com passeios na rua com máscara, presentes trocados à porta, subidas e descida de escadas de apartamentos evitando elevadores. A última peregrinação foi hoje de manhã – uma visita ao hospital à última bisavó viva do meu filho.

Foi, sem dúvida, um Natal diferente. As refeições habituais do meu Natal nos últimos anos consistem em dois almoços e três jantares, em casas de diferentes núcleos familiares e de amigos. Um dos almoços costuma ser numa sala alugada onde se reúnem dezenas de pessoas.

Almocei e jantei em minha casa, com a minha mulher e o meu filho. Por comparação com os anos anteriores, o Natal de 2020 foi saudável e simples, se não contar com as peregrinações natalícias, a reunião familiar via zoom, as conversas por telemóvel e os diálogos através do Skype.

Houve momentos em que passámos por excêntricos, o que a mim não me faz mossa e até me diverte. Não me desgosta ter uma justificação científica para adotar comportamentos considerados anti-sociais.

É estranho é quem olhou para nós como excêntricos não ter tido a oportunidade de apreciar a coreografia familiar executada ao som de uma tradicional música de Natal disponível num vídeo do youtube.

20
Dez20

Crítica da razão alarmista

João Miguel Almeida

Entre o pânico em relação à covid-19 instigado por alguma comunicação social e o negacionismo mais presente nas redes sociais não é fácil encontrar um fio de racionalidade. Alguns indicadores publicados diariamente no boletim da DGS, habitualmente pouco comentados, ajudam-nos a contextualizar a pandemia. Estou a referir-me aos gráficos com a distribuição de casos confirmados e de mortes por faixas etárias (ver aqui).

Que o risco de mortalidade associado à covid-19 é mais baixo do que muitos insinuam salta à vista: no primeiro gráfico, a coluna de casos confirmados na faixa etária entre os 40-49 anos é claramente dominante. Mas se observarmos o gráfico das mortes vemos que não há correspondência entre o número de casos confirmados e de mortes nesta faixa etária. Aliás, entre os 40-49 anos o número de mortos por covid-19 é tão baixo, que nem sequer é percetível.

É entre os maiores de 80 anos que há mais mortes por covid-19. O que, dada a longevidade da população portuguesa, inclui um número razoável de nonagenários. Não desvalorizo a morte de pessoas de idade avançada. Todas as vidas têm de ser defendidas. Simplesmente, nas idades mais avançadas raramente a covid-19 é a causa exclusiva de morte. Geralmente há outras patologias associadas e/ou uma debilidade geral do organismo.

Para os menores de 80 anos, o risco de morte por covid-19 é relativamente baixo. Mas há outros riscos associados à pandemia. O boletim da DGS podia e devia dar uma ideia desses riscos publicando gráficos com o número de internados e de pessoas em cuidados intensivos. A minha intuição é que haveria uma maior distribuição de casos pelas diferentes faixas etárias.

É estúpido correr o risco de ir parar a um hospital e de perder capacidades por causa de um contágio evitável. Além disso, não podemos subestimar os problemas mentais associados à pandemia. A começar pelo trauma de ser responsável pelo contágio e morte de uma pessoa próxima. Imagino como pode ser devastador para um neto sentir-se responsável pela morte de um avô. 

Não vale a pena entrar em pânico por causa da covid-19, mas vale muito a pena ser cuidadoso.

 

 

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