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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

27
Abr20

A covid-19 também nos contagia com novas discriminações

João Miguel Almeida

aqui escrevi sobre a visão distópica do jornalista norte-americano especializado em temas de saúde pública, Donald G. MacNeil. Ele adverte-nos que nos próximos dois anos podemos viver num mundo em que há dois tipos de pessoas, com estilos de vida completamente diferentes: os imunes e os não imunes.

Mas no discurso de alguns políticos, e não me estou a referir a políticos de estilo populista, mas, por exemplo, à senhora de estilo tecnocrático que atualmente é Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já desponta a legitimação de discriminações devido à idade. José Leitão analisa a questão num artigo do Público que pode ler aqui.

É triste e inquietante que numa Europa que se tem destacado pelo combate a discriminações de caráter racial, de género, de orientação sexual, se introduza agora uma nova categoria – o idoso – cujos direitos são limitados. Após o «envelhecimento ativo» teríamos o «envelhecimento confinado». As pessoas com mais de setenta anos são muito diferentes, têm diferentes condições de saúde, responsabilidades, disponibilidades e motivações também diferentes. A imposição de um estilo de vida a pessoas de mais de setenta anos caracterizado pelo isolamento e pela segregação, baseada na construção de uma categoria social, é tão absurda como a segregação de pessoas por razões de género ou de etnia.

 

Durante esta pandemia aprendi que o conceito de «imunidade de grupo» nasceu num contexto histórico muito diferente dos cenários que agora são defendidos para travar a covid-19. Agora pretende-se que os jovens sejam «largados» na rua, intencionalmente, para se infetarem, resistirem à epidemia e protegerem, com os seus anticorpos, a comunidade. O conceito começou a ser aplicado porque, durante uma epidemia de varíola, os médicos verificaram que as pessoas mais velhas, que já tinham sido involuntariamente infetadas no passado, protegiam os mais novos.

Na incerteza atual sabemos que os recuperados da covid-19 adquirem imunidade, tanto os novos como os velhos que se ficassem confinados não beneficiariam em nada a comunidade por serem imunes. Não sabemos por quanto tempo essa imunidade é válida, nem que sequelas deixa a covid-19.

Não permitamos que o nosso desconhecimento sobre a pandemia seja usado para reforçar preconceitos e criar novas descriminações.

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