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Diário do Ano C-19

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27
Mar20

A pandemia e os espectros europeus

João Miguel Almeida

Há palavras que contagiam tanto ou mais do que vírus. São exemplos destas palavras as que o ministro holandês Wopke Hoekstra terá proferido numa reunião por videoconferência do Conselho Europeu na qual o governo espanhol declarou que não tinha margem orçamental para lidar com a crise do covid-19. Para o ministro holandês, a reação adequada da Comissão Europeia a estas declarações seria investigar o governo espanhol. O adjetivo «repugnante», com que António Costa classificou as declarações de Wopke Hoekstra, propagou-se também a alta velocidade. Outro vírus? Creio que o adjetivo de António Costa foi um anti-corpo necessário.

A irracionalidade de Bolsonaro ou de Donald Trump não são piores do que o moralismo aparentemente racional do ministro holandês. Trata-se, literalmente, de culpabilizar a vítima ou, no mínimo, de suspeitar da vítima. O governo espanhol tem errado, mas nenhum desses erros introduziu o covid-19 em Espanha. Mesmo se fosse esse o caso, o povo espanhol não pode servir de bode expiatório de políticas ineficazes, nenhum povo pode sê-lo.

A desconfiança do ministro holandês evoca espectros não muito longínquos do desnorte europeu durante a crise de 2008 e anos subsequentes. Nessa altura circulou, a partir do Norte europeu, a palavra PIGS para designar países como Portugal, a Itália, a Grécia e a Espanha, a braços com a crise das dívidas soberanas, explicadas de modo expedito por um ministro das Finanças holandês com o gosto dos povos do Sul por copos e mulheres.

Evoca ainda espectros mais longínquos, do período de entre duas Grandes Guerras, em que os povos europeus e de todo o mundo eram hierarquizados segundo critérios raciais ou civilizacionais, a xenofobia justificava políticas e legitimava um projeto de Europa que felizmente foi derrotado durante a II Grande Guerra.

Ensaiar a definição de uma política europeia de resposta à pandemia e a recessão que ela vai provocar com atitudes de arrogância de países que se veem como «moralmente mais puros» em relação a outros, além de xenófobo, é estúpido. O covid-19 não se deixa barrar por fronteiras, não escolhe as vítimas de acordo com critérios ideológicos ou morais. Se não nos unirmos para lhe resistir com inteligência, daremos ao covid-19 como aliados todos os demónios que no passado conduziram a Europa à autodestruição.

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