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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

20
Mai20

As origens da pandemia

João Miguel Almeida

As origens concretas da pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2 ainda não se encontram completamente esclarecidas e estão envoltas em controvérsia científica é até em teorias da conspiração.

A explicação atualmente mais aceite pela comunidade científica é que a pandemia na origem da covid-19 é devida a uma transferência de um vírus de animais para seres humanos. É esta a explicação subscrita como a mais provável por um grupo de cientistas que em março escreveu uma carta à revista Nature. Nessa carta os cientistas admitem dois cenários para a constituição do vírus especialmente forte SARS CoV-2: que o vírus se tenha fortalecido por seleção natural antes ou após a transferência de animal para ser humano.

Está por provar que essa contaminação se tenha dado nos chamados “wet markets” asiáticos, mercados onde são vendidos e abatidos animais selvagens em grande proximidade com os seres humanos, favorecendo o contágio.

Tem sido também apresentada a explicação alternativa de que na origem do vírus que causa a covid-19 estaria uma manipulação genética em laboratório. Mas cientistas credenciados que estudaram o vírus declararam que não tinham encontrado nenhuma prova de manipulação genética.

Em concreto, o laboratório de Wuhan foi apontado como uma possível fonte de contaminação, por acidente. Este laboratório dedica-se à investigação sobre o coronavírus, tendo dado um grande contributo científico para estudá-lo. Foi uma cientista deste laboratório que descobriu a ligação entre o vírus em morcegos e a epidemia de SARS em 2003. Além de não estar provado que a fonte de contaminação é o laboratório de Wuhan, a Newsweek revelou que as pesquisas neste laboratório são financiadas em grande parte pelos Estados Unidos (ver aqui). O que sabemos sobre a investigação científica no laboratório de Wuhan é que tem estudado os coronavírus para combater melhor as epidemias que podem causar.

No entanto, a ideia da pandemia ter a sua origem em Wuhan tem sido questionada. Neste momento não podemos dá-la como certa.

Para além de todas as incertezas eu penso que devemos reter duas ideias principais:

1 – o consenso científico é que a origem da pandemia, ou de pandemias como a atual é a transferência de vírus de animais para seres humanos;

2 – há determinadas condições ambientais e sociais que favorecem esse contágio.

A explicação alternativa de que teria havido um contágio acidental a partir de um laboratório em nada altera as duas ideias acima expostas e a questão de fundo que está na origem da pandemia. Dito de outro modo: se não fosse possível a transferência de vírus de animais para seres humanos estar na origem da pandemia, não haveria investigação sobre o problema em laboratórios nem eventuais acidentes que podem, por sua vez causar epidemias.

Além destas explicações, existem ainda várias teorias da conspiração. Essas não vou levá-las em conta porque, em primeiro lugar, não estão provadas e em segundo lugar, de nada adiantam. Se as teorias da conspiração estiverem todas erradas, continuamos a ter de enfrentar pandemias. Se alguma estiver certa, acrescenta apenas mais um problema aos problemas que já temos.

A transferência de um vírus de um animal para uma pessoa é um problema biológico ou médico. A transformação de uma doença numa pandemia é um problema de saúde pública, é um problema social e político.

Em meu entender, todos os cidadãos deviam tentar perceber como é que este problema surgiu e como é que podemos resolvê-lo.

Mas não devíamos pensar neste problema que tem uma dimensão política deixando-nos levar pelo «jogo de culpabilização» alimentado por determinados governos em relação a outros.

O que li sobre o assunto leva-me a pensar que, além de podermos identificar causas específicas, concretas para esta pandemia, há condições ambientais e sociais que a favorecem e que se não forem resolvidas podem dar origem a outras pandemias.

O que é que nós sabemos?

Sabemos que há um problema de destruição de habitats naturais e de desequilíbrios ambientais que não existe só na China, donde terá vindo o SARS CoV-2, mas um pouco por todo o planeta (ver aqui). A deflorestação tem levado animais selvagens a migrar dos seus ambientes naturais para ambientes humanos onde espalham novas doenças. O vírus que causa a covid-19 é transmitido por morcegos e a probabilidade de transmissão é maior em regiões deflorestadas, pântanos secos para cultivo de terras, minas e projetos residenciais. Os riscos de contágio são baixos quando os animais vivem nos seus nichos em habitats naturais mas aumentam em regiões habitadas por humanos. Este princípio geral aplica-se particularmente a morcegos que se alimentam de insetos os quais, nas zonas habitadas se concentram à volta da luz de lâmpadas ou da fruta dos pomares. Uma forma de prevenir pandemias seria proteger os habitats naturais e educar as populações locais para conseguirem lidar com surtos epidémicos e evitar que estes se transformassem em pandemias.

Percebemos que esta questão de fundo é mais relevante do que qualquer teoria da conspiração ou explicação acidental se tivermos em conta que, há dois anos, vários cientistas já tinham previsto o aparecimento de um novo coronavírus nas regiões da Ásia sujeitas a deflorestação ou outras pressões ambientais.

Além das origens concretas da covid-19, que ainda não se encontram completamente esclarecidas, há um contexto de destruição de habitats naturais, de migrações do campo para cidades gigantescas com poucas condições de salubridade, que potencia epidemias como as da covid-19.

A pandemia não é só um problema de saúde, é também um problema social e para a combatermos devemos tentar perceber não só a sua origem biológica, mas também as condições sociais que favoreceram o seu aparecimento e expansão.

 

 

 

 

 

 

 

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