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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

21
Mar20

Operação cartas no correio

João Miguel Almeida

Hoje saí de casa para ajudar os meus pais a por umas cartas no correio como se estivesse a desempenhar uma missão perigosa – e é possível que estivesse a desempenhar uma missão perigosa. A ameaça invisível do covid-19 introduziu no quotidiano uma ambivalência fantástica, em que cada gesto pode ser banal ou de alto risco, banal e de alto risco.

O caminho até à casa dos meus pais são dez minutos a pé, num passo nem muito rápido nem demasiado lento subindo uma avenida, atravessando duas pracetas. Notei as diferenças da paisagem visual em relação aos sábados à tarde em dias de sol do tempo pré-crise: escassas pessoas – nunca vi mais do que três ao mesmo tempo; muitos carros e motas estacionadas, como se esquecidas pelos donos; todos os pequenos estabelecimentos comerciais fechados; através de um portão do Instituto Ricardo Jorge, vislumbrei um homem coberto dos pés à cabeça, com uma máscara na cara, desinfetando o chão, com movimentos lentos, como se cumprisse um ritual.

Mais impressionante eram as mudanças na paisagem sonora: poucas vozes humanas – um homem a falar ao telemóvel, que passou por mim ladeado por uma mulher e uma criança silenciosas; um casal a conversar numa varanda; um casal entrado na idade a chamar uma mulher jovem sentada, sozinha, numa praceta; a algazarra solitária e longínqua de uma criança. Ouvia mais ruídos animais e mecânicos – o bater das asas dos pombos, o latido de um cão, o ronronar dos carros a circular, espaçados e vagarosos, como se estivessem em alerta.

Abri a porta do prédio dos meus pais com uma chave. Em vez de usar o elevador, subi as escadas até ao quarto andar, sem tocar no corrimão. Ocorreram-me memórias de subir ou descer as mesmas escadas quando era criança, ouvindo as vozes e os passos de outras crianças e adultos. Cheguei ao quarto andar. As cartas estavam no tapete à frente da porta da cozinha. Falei com o meu pai através da porta. Peguei nas cartas e desci as escadas, em passo mais rápido.

Ao voltar a minha casa, desinfetei as mãos, despi a roupa, tomei banho, vesti nova roupa. Excesso de zelo? As opiniões dividem-se e o consenso é necessário para conservar a paz e a saúde, quanto mais não seja a saúde mental.

Toda esta operação de gestos meticulosos seria lúdica se a Morte não pudesse espreitar de todos os lados.

Para a semana a operação concluirei a operação, pondo as cartas no correio.

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