Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

25
Abr20

Cantar abril

João Miguel Almeida

Hoje, às 15 horas, fomos à janela cantar «Grândola Vila Morena». Vivemos no Lumiar e tínhamos dúvidas sobre se o ritual teria grande aceitação. Um par de minutos antes da hora marcada começámos a ouvir «E depois do adeus», de Paulo de Carvalho. E às 15 horas em ponto a voz de Zeca Afonso vibrava no ar. Havia pessoas nas varandas e às janelas, a cantar e algumas com cravos vermelhos nas mãos. Alguns prédios abriram-se à celebração. Outros permaneceram fechados, silenciosos. Após o «Grândola Vila Morena», ainda se ouviram mais algumas músicas do Zeca Afonso. Depois todos nós voltámos para dentro. A vida continua, como um rio em que corre água de abril, nutrindo a esperança de uns e a má-disposição de outros.

22
Abr20

Tirar o 25 de abril da Assembleia da República?

João Miguel Almeida

Não percebo o escândalo em torno das comemorações do 25 de abril na Assembleia da República. É claro que, no atual contexto, a forma mais adequada de concretizar essas comemorações gera dúvidas, mas não vejo como é que, num regime democrático, pode ser polémica a comemoração do acontecimento histórico genético da democracia portuguesa.

A controvérsia chegou mesmo aos antigos chefes de Estado da democracia portuguesa. Ramalho Eanes e Cavaco Silva, muitas vezes associados por causa do ar austero de ambos, tomaram atitudes diametralmente opostas, o que não surpreende. Ramalho Eanes disse que não concorda com a modalidade de comemorações escolhidas, mas vai na mesma, levado pela «responsabilidade institucional». Cavaco Silva não vai e não justificou a ausência, permitindo todas as especulações, incluindo a de que o antigo Presidente da República acha que a data não merece ser comemorada. Jorge Sampaio dá mais um exemplo de civismo, justificando a sua ausência com o facto de pertencer a um grupo de risco.

É absurdo considerar que todas as pessoas que estão contra as comemorações na Assembleia da República são fachos e algumas das pessoas que tomaram essa posição, como João Soares e Miguel Sousa Tavares, têm currículo no combate pela democracia. Mas não sejamos ingénuos a ponto de pensarmos que também não há filofascistas, ou fãs de Viktor Órban, entre os críticos das comemorações do 25 de abril na Assembleia da República.

Alguns críticos das comemorações do 25 de abril apontam como exemplo a atitude da Igreja Católica durante a Páscoa. Mas a Igreja Católica não deixou de encontrar maneiras de assinalar simbolicamente o essencial da Páscoa – nos locais próprios: o Papa Francisco apareceu sozinho na Praça de S. Pedro; alguns párocos celebraram a missa, transmitida online aos fiéis, perante bancos da igreja ou capela cheios com as imagens dos paroquianos.

Em vez das comemorações serem no interior da Assembleia da República podiam ser, por exemplo, ao ar livre frente à Assembleia da República, com os oradores a falar de um palanque ou da varanda, perante um público muito espaçado? Talvez.

O que não faz sentido é essa ideia de que os políticos se vão divertir nas comemorações enquanto o povo sofre enclausurado em casa. Os políticos vão trabalhar num feriado e correr mais riscos de contágio do que se ficassem em casa. Quem acha que os políticos vão à Assembleia da República arejar a pevide, repare na expressão facial de Ramalho Eanes.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub