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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

20
Jun20

Epidemias do século XIX nos versos de Cesário Verde

João Miguel Almeida

Nós

 

I

 

Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre

E a Cólera também andaram pela cidade,

Que esta população, com um terror de lebre,

Fugiu da capital como da tempestade.

 

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas,

(Até então nós só tivéramos sarampo)

Tanto nos viu crescer entre os montões de malvas

Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

 

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:

O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;

Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos

Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

 

Na parte mercantil, foco da epidemia

Um pânico! Nem um navio entrava a barra,

A alfândega parou, nenhuma loja abria,

E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

 

Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,

Rodavam sem cessar as seges dos enterros,

Que triste a sucessão dos armazéns fechados!

Como um domingo inglês na «city», que desterros!

 

 

Sem canalização, em muitos burgos ermos,

Secavam dejecções cobertas de mosqueiros.

E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,

Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

 

Uma iluminação a azeite de purgueira,

De noite, amarelava os prédio macilentos.

Barricas d’ alcatrão ardiam; e maneira

Que tinham tons d’ inferno noutros arruamentos.

 

Porém, lá fora, à solta exageradamente,

Enquanto acontecia essa calamidade,

Toda a vegetação, pletórica, potente,

Ganhava imenso com a enorme mortandade!

 

Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,

Numa opulenta fúria as novidades todas,

Como uma universal celebração de bodas,

Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

 

Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,

Triste d’ ouvir falar em órfãos e em viúvas,

E em permanência olhando o horizonte em brasa,

Não quis voltar senão depois de das grandes chuvas.

 

Ele, dum lado, via os filhos achacados,

Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!

E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,

E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!

 

E o campo desde então, segundo o que me lembro,

É todo o meu amor de todos estes anos!

Nós vamos para lá; somos provincianos,

Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!

 

 

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