Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

26
Mar20

Missão «cartas no correio» cumprida

João Miguel Almeida

Hoje, à hora do almoço, cumpri a missão de enviar pelo correio cartas dos meus pais, que têm mais de setenta anos e estão confinados à sua casa. O meu pai já tinha tentado colocar pessoalmente a carta no correio, quando a crise do covid-19, ainda estava numa fase mais inicial, mas havia uma bicha enorme. Ficou parado nos degraus da escada do edifício, e atrás dele estava um homem a tossir-lhe nas costas.

Aparentemente a missão estava facilitada porque da janela da minha casa posso ver a estação dos correios e a quantidade de pessoas à espera da sua vez, cá fora. Primeiro observei que havia uma enorme bicha de manhã e que à tarde esta desaparecia o que, achei me facilitava muito a ida ao correio. Mas ontem descobri a explicação do fenómeno: por causa do covid-19, os correios reduziram o horário de atendimento ao público para o período entre as nove da manhã e a uma e meia da tarde. Continuei a observação com outro objetivo: o de identificar o momento em que a bicha estivesse mais pequena, mas ela parecia nunca estar suficientemente pequena.

Finalmente decidi-me a sair de casa e a esperar na bicha, já perto da hora do fecho. Tinha cinco pessoas à minha frente e, enquanto esperava, outras foram chegando e parando atrás de mim. Estávamos quietos e mudos e o silêncio humano foi quebrado estrondosamente por uma mulher que não estava na bicha e falava aos gritos, garantindo a um interlocutor ou interlocutora invisível que saía todos os dias. Algumas pessoas da bicha traziam endereços relativos ao covid-19: um homem tinha a cara tapada por uma máscara e, antes de entrar nos correios, solene, calçou umas luvas pretas; uma mulher idosa estava vestida normalmente mas tinha as mãos brancamente enluvadas. Mas a minha «toilette-covid» preferida foi a de uma mulher jovem com a cara tapada por um lenço estilo, óculos escuros e um boné por cima do qual assentavam uns vistosos fones.

Quando chegou a minha vez de ser atendido, saí da rua e entrei rapidamente na estação dos correios. Reconheci o funcionário do outro lado do balcão, que me sorriu. Reparei no chão estava traçada uma linha amarela para indicar ao público algum distanciamento do balcão, mas, pelos vistos, fui o único cliente a reparar na linha amarela, porque todos os outros a passaram. Entre mim e o funcionário havia um separador de plástico ou de outro material transparente qualquer. De resto, toda a operação decorreu normalmente.

Voltei para casa e tomou o banho que estava a adiar desde o início do dia.

20200325_121656.jpg

 

21
Mar20

Operação cartas no correio

João Miguel Almeida

Hoje saí de casa para ajudar os meus pais a por umas cartas no correio como se estivesse a desempenhar uma missão perigosa – e é possível que estivesse a desempenhar uma missão perigosa. A ameaça invisível do covid-19 introduziu no quotidiano uma ambivalência fantástica, em que cada gesto pode ser banal ou de alto risco, banal e de alto risco.

O caminho até à casa dos meus pais são dez minutos a pé, num passo nem muito rápido nem demasiado lento subindo uma avenida, atravessando duas pracetas. Notei as diferenças da paisagem visual em relação aos sábados à tarde em dias de sol do tempo pré-crise: escassas pessoas – nunca vi mais do que três ao mesmo tempo; muitos carros e motas estacionadas, como se esquecidas pelos donos; todos os pequenos estabelecimentos comerciais fechados; através de um portão do Instituto Ricardo Jorge, vislumbrei um homem coberto dos pés à cabeça, com uma máscara na cara, desinfetando o chão, com movimentos lentos, como se cumprisse um ritual.

Mais impressionante eram as mudanças na paisagem sonora: poucas vozes humanas – um homem a falar ao telemóvel, que passou por mim ladeado por uma mulher e uma criança silenciosas; um casal a conversar numa varanda; um casal entrado na idade a chamar uma mulher jovem sentada, sozinha, numa praceta; a algazarra solitária e longínqua de uma criança. Ouvia mais ruídos animais e mecânicos – o bater das asas dos pombos, o latido de um cão, o ronronar dos carros a circular, espaçados e vagarosos, como se estivessem em alerta.

Abri a porta do prédio dos meus pais com uma chave. Em vez de usar o elevador, subi as escadas até ao quarto andar, sem tocar no corrimão. Ocorreram-me memórias de subir ou descer as mesmas escadas quando era criança, ouvindo as vozes e os passos de outras crianças e adultos. Cheguei ao quarto andar. As cartas estavam no tapete à frente da porta da cozinha. Falei com o meu pai através da porta. Peguei nas cartas e desci as escadas, em passo mais rápido.

Ao voltar a minha casa, desinfetei as mãos, despi a roupa, tomei banho, vesti nova roupa. Excesso de zelo? As opiniões dividem-se e o consenso é necessário para conservar a paz e a saúde, quanto mais não seja a saúde mental.

Toda esta operação de gestos meticulosos seria lúdica se a Morte não pudesse espreitar de todos os lados.

Para a semana a operação concluirei a operação, pondo as cartas no correio.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub