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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

01
Ago20

Um futuro sem confinamentos gerais

João Miguel Almeida

Este verão vamos todos descobrir o que é a covida em férias. E depois veremos como é possível conviver em tempo de escola, trabalho e humidades outonais e invernais com o SARS-CoV-2 e os vírus que se seguem.

Não acredito é que seja possível voltarmos a um confinamento geral. As condições que potenciam pandemias como a da covid-19 não vão desaparecer tão cedo. Estou a referir-me à destruição de habitats naturais e à promiscuidade entre animais selvagens, animais domésticos e seres humanos. A China já tomou medidas rigorosas para evitar situações propícias a novas epidemias. Mas, por exemplo, no Brasil, na Amazónia, toda a política vai num sentido contrário. Se nos próximos dez anos tivermos mais quatro ou cinco pandemias como a da covid-19 é inviável responder às novas crises com novos confinamentos gerais e outros tantos afundamentos económicos.

Continuo a achar que o confinamento geral teve razão de ser no nosso país, por duas razões: em primeiro lugar, mesmo que se prove que o confinamento não evita mortes, apenas as adia, acho que valeu a pena. Não é a mesma coisa termos mil e quinhentas mortes em três meses ou em três semanas, quando o sistema nacional de saúde foi apanhado de surpresa, sem equipamentos adequados. O adiamento permitiu adquirir novos equipamentos e evitar que os médicos tivessem que escolher a quem é que davam o ventilador. Em segundo lugar, havia um alarme instalado na sociedade e, se o governo não decretasse o confinamento, havia o risco de haver uma proliferação de «confinamentos selvagens» com pessoas a despedir-se, pais a retirarem os filhos das escolas, empresários a fecharem empresas, com impactos sociais e económicos tão ou mais negativos do que o confinamento implementado pelo governo e Presidente da República, com apoio do parlamento.

Mas foi uma situação irrepetível. O sistema nacional de saúde, as famílias, os trabalhadores, os empresários, os responsáveis políticos têm agora uma consciência dos perigos, dos recursos para gerir a situação, que antes não possuíam. Tudo o que aprenderam nos últimos meses terá de ser usado para conviver com os vírus.

Desconfinar é preciso.        

11
Jul20

Desconfinar ou reconfinar ou…?

João Miguel Almeida

O vírus SARS-CoV-2 trouxe com ele incertezas permanentes e verdades provisórias. A verdade de hoje é que a epidemia está a estabilizar em Lisboa, com Rt abaixo de 1 (ver aqui), e trata-se de uma verdade coerente com o reforço de medidas em finais de junho e início de julho.

A minha sensação, que me parece partilhada por muitos, é que devo fazer o que depende de mim para evitar a covid-19, mas há muito, demasiado, que não depende de mim.

As críticas ao governo partem de muitos lados e a crise de uma pandemia demonstra até ao absurdo que as ações individuais são indispensáveis, mas não bastam para lidar com uma situação como esta em que a ação do Estado é decisiva para garantir um mínimo de segurança às pessoas. No entanto, creio que a margem do governo é mais curta do que a maior parte das pessoas imagina.

Seria difícil o governo e o Presidente da República não terem decidido confinar a população portuguesa no início da pandemia. O modelo sueco não podia ser tomado à letra em Portugal. Em primeiro lugar, porque o modelo sueco partiu de pressupostos de uma realidade social diferente, em que as pessoas de mais idade convivem pouco com os mais jovens. O raciocínio foi: os jovens apanham o vírus e recuperam, os velhos vivem isolados dos jovens e estão protegidos. Foi esquecido que os velhos suecos a viver em lares podem estar isolados dos jovens da sua família, mas não o estão dos trabalhadores que lhes prestam assistência. Em segundo lugar, em Portugal já estava instalado o alarme social com um espetáculo mediático montado em volta de cenas de horror epidémico em Itália e Espanha. Se o governo português decidisse imitar a Suécia, haveria um «confinamento selvagem», com pessoas a fechar empresas, a despedir-se, a tirar os filhos da escola, e enfiavam-se todos em casa sem qualquer proteção legal ou apoio educativo.

Atualmente, quando o espetáculo de horror mediático se deslocou da saúde pública para a economia, também seria improvável reconfinar sem dar a impressão de cometer um suicídio económico, como parece que aconteceu na Argentina. Há medidas tomadas a nível nacional e local que são discutíveis e criticáveis. Por exemplo, não percebo por que é que, no combate à epidemia, se reduz o horário nos centros comerciais, favorecendo a formação de bichas frente à entrada e a concentração de pessoas no interior quando o alargamento dos horários é que evitaria as bichas e favoreceria a circulação mais à vontade no interior dos centros comerciais.

A «covida» é um nó górdio que ninguém, a começar ou a acabar no governo, ainda conseguiu desfazer com um só golpe. Toda a sociedade e todos os poderes, grandes e pequenos, públicos e privados, estão envolvidos na adaptação à «covida» e no combate por uma vida sem prefixos, num processo sem fim à vista.

05
Jul20

O vírus da mentira

João Miguel Almeida

É costume ser dito que na guerra a verdade é a primeira baixa. A verdade também está a ser dizimada pela epidemia de covid-19. A Grécia teria uma estranha imunidade à covid-19. Em Espanha, os números têm evoluído num sentido muito favorável ao turismo. Nos Estados Unidos e no Brasil os números são horríveis, mas o governo testa pouco, evitando que sejam ainda mais assustadores.

Nós por cá temos os números que temos, que estão a ser usados contra nós na guerra económica, em especial a guerra do turismo.

 É absurdo que o governo britânico tenha imposto quarentena obrigatória aos turistas ingleses que visitarem Portugal no regresso a Inglaterra, dado que a situação da pandemia em território inglês é muito pior do que em território português. Mas nem só os governos torneiam a verdade. A quarentena obrigatória não é aplicável à Escócia. O que acontecerá este verão é que muitos ingleses visitarão Edimburgo antes de visitarem Portugal. Haverá uma brutal descida de turismo inglês e uma explosão do turismo «escocês».

Esperemos que a saúde económica não seja mais flagelada do que a saúde física dos portugueses.

04
Jul20

Nem relaxe nem alarmismo

João Miguel Almeida

O stress causado pelos dias de confinamento, pelos dias de desconfinamento em que foi necessário gerir teletrabalho e escola online, pelo bombardeamento mediático acerca da covid-19, estão a levar os portugueses a atitudes extremas de negação ou de paranoia acerca da pandemia.

Não sou propriamente um adepto de que «no meio é que está a virtude», mas penso que, no estado atual da pandemia não é justificado nem o relaxe nem o alarmismo. Creio que o risco de eu morrer de covid-19 é baixo. Mesmo assim, há um risco razoável de, se for portador do vírus, contagiar pessoas que podem ficar gravemente doentes e até morrer. Ou, no caso de eu próprio adoecer, ficar com sequelas. São riscos suficientes para ter cuidado.

O alarmismo também é outra atitude injustificada e a telenovela em volta da covid-19 já me começa a cansar. Em Portugal morrem, em média, cerca de trezentas pessoas por dia. Sete mortes por covid-19, o número de hoje, corresponde a um pouco mais de dois por cento do total de mortes. Se fosse elaborada uma lista macabra com o top das maiores causas de morte em Portugal, a covid-19 não estaria certamente no topo da lista.

Hoje o cabeçalho dos jornais é que houve mais 413 casos confirmados. Mas estes «casos» são uma categoria ambígua que inclui quer pessoas realmente doentes quer simples portadores de vírus que, uma vez identificados, ficam sob vigilância e isolamento para evitar contágios. Hoje também foram confirmados mais 348 recuperados e esta categoria não é ambígua, são mais 348 pessoas que venceram, comprovadamente, a doença, e, logo, outros tantos passos em direção à imunidade de grupo.

Desconfinar é preciso – com cuidado mas sem alarmismos.

23
Mai20

Aviões em terra

João Miguel Almeida

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Tenho aproveitado uma parte das manhãs destes solarengos dias de desconfinamento para passear na Alta de Lisboa, com vista para o aeroporto da Portela. Nos meus passeios, é raro ver um avião a aterrar ou a levantar voo.

“Gaivotas em terra, tempestade no mar”, é um ditado português.

Os aviões em terra são uma imagem da tempestade interior em que vivemos, das limitações físicas impostas pela pandemia.

Fomos, literalmente, levados a pôr mais os “pés na terra”, outra expressão portuguesa, que apela a que prestemos mais atenção ao mundo que nos rodeia.

Mas ainda não é claro se a imagem dos aviões em terra nos abre as portas para um mundo mais consciente e responsável ou para uma tempestade de potencial destrutivo inimaginável.

É possível que, além de nos tornarmos capazes de dar uma resposta de saúde pública à altura da pandemia, nos tornemos mais consciente de que pandemias deste tipo são potenciadas pela destruição de habitats naturais. E que a prevenção de novos surtos de epidemias de vírus que passam de animais selvagens para seres humanos implica a preservação dos habitats naturais; a promoção de práticas económicas sustentáveis; a educação e novas oportunidades de trabalho às populações que vivem na fronteira com habitats naturais.

Também é possível que nos deixemos intoxicar por teorias da conspiração e pela guerra entre os Estados Unidos e a China. Além da “guerra” contra o SARS-CoV-2 há muitas outras guerras políticas e económicas em curso.

Ainda melhor do que termos mais aviões no ar é termos mais os pés na terra.

 

 

02
Mai20

Desconfinar é preciso…e difícil

João Miguel Almeida

A discussão acerca dos efeitos do confinamento começou logo que foi decretado e não vai acabar tão cedo. Aos críticos do confinamento é importante lembrar que ele foi racionalmente justificado num período de grande incerteza acerca do SARS-CoV2, em que os riscos da pandemia já estavam mediatizados, o medo estava instalado na população e muitas pessoas começavam, por sua própria iniciativa, a fechar-se em casa. O confinamento permitiu, pelo menos, dar à maior parte de nós um sentimento de proteção enquanto o Serviço Nacional de Saúde reforçava a sua capacidade de resposta e os procedimentos de segurança iam sendo assimilados.

Se o período de confinamento foi razoavelmente gerido em Portugal, o desconfinamento tem riscos psicológicos, económicos e políticos. Luís Salgado de Matos apresenta aqui algumas propostas para o desconfinamento.

As histórias que tenho ouvido são preocupantes. É mais fácil tirar as pessoas de casa do que o medo da cabeça das pessoas. A economia e a sociedade vão ressentir-se e não faltam demagogos à espera da sua oportunidade política.

O gestor de uma pequena e média empresa contou-me a seguinte história: a sua empresa tem um trabalho suspenso em Espanha e, após o fim do confinamento primeiro em Espanha e depois em Portugal, é preciso concluí-lo. Cinco trabalhadores têm de se deslocar de carro a Espanha para a empresa cumprir o contrato e pelo menos um deles não quer ir por causa da covid-19. O gestor é responsável por não ter cinco carros disponíveis para transportar cinco trabalhadores? Um trabalhador pode recusar-se a trabalhar por ter de partilhar um carro com quatro colegas quando, durante o período de confinamento houve famílias com cinco pessoas ou mais que estiveram fechadas em casa? O governo já esclareceu algumas questões, mas outras, como estas, penso que continuam por esclarecer. Talvez uma solução fosse incentivar e promover a realização de testes à covid-19 que dessem confiança aos trabalhadores no regresso ao trabalho. Seria generalizar o que já está anunciado para os jogadores de futebol.

Seja qual for o «novo normal» que nos espera é preciso pôr de novo a economia a funcionar. Viver é correr riscos e o SARS CoV-2 pode não ser o pior.

01
Mai20

Confinamento ou contaminação voluntária?

João Miguel Almeida

Ontem, na entrevista à RTP1, António Costa defendeu a estratégia de confinamento que o governo tem seguido dos críticos que defendem a proteção dos grupos de risco e a contaminação voluntária da maioria para alcançar a imunidade de grupo.

O argumento do primeiro-ministro foi simples: não seria possível mobilizar os portugueses para uma contaminação voluntária. Antes de ser decretado o estado de emergência muitos portugueses já começaram a ficar em casa. Implicitamente António Costa disse que a política de confinamento veio «legalizar» e aplicar de uma forma sistemática e consequente as medidas que muitos portugueses queriam que fossem aplicadas.

Além deste argumento, há mais dois contra a estratégia da contaminação voluntária: em caso de contaminação voluntária havia o risco mais do que certo do serviço nacional de saúde entrar em rutura porque não estava preparado para tratar uma avalanche de casos de covid-19; há ainda muito desconhecimento acerca da covid-19 – já têm sido assinaladas mortes ou estados muito graves de pessoas que não pertenciam a grupos de risco e não se sabe exatamente quais são as sequelas, nem durante quanto tempo dura a imunidade adquirida.

É claro que se a situação se prolongar por mais de um ano, todos estes fatores podem mudar: as pessoas podem fartar-se de estar confinadas (porque a períodos de «desconfinamento» podem seguir-se novos períodos de confinamento) e desempregadas, ou com baixos salários e preferir o risco da doença ao risco da pobreza; o serviço nacional de saúde pode reforçar ainda mais a sua capacidade de resposta à covid-19; o vírus pode ser melhor conhecido e os riscos de contaminação parecerem menores.

Num cenário destes, haverá mais vozes a defender a contaminação voluntária?

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