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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

05
Jul20

O vírus da mentira

João Miguel Almeida

É costume ser dito que na guerra a verdade é a primeira baixa. A verdade também está a ser dizimada pela epidemia de covid-19. A Grécia teria uma estranha imunidade à covid-19. Em Espanha, os números têm evoluído num sentido muito favorável ao turismo. Nos Estados Unidos e no Brasil os números são horríveis, mas o governo testa pouco, evitando que sejam ainda mais assustadores.

Nós por cá temos os números que temos, que estão a ser usados contra nós na guerra económica, em especial a guerra do turismo.

 É absurdo que o governo britânico tenha imposto quarentena obrigatória aos turistas ingleses que visitarem Portugal no regresso a Inglaterra, dado que a situação da pandemia em território inglês é muito pior do que em território português. Mas nem só os governos torneiam a verdade. A quarentena obrigatória não é aplicável à Escócia. O que acontecerá este verão é que muitos ingleses visitarão Edimburgo antes de visitarem Portugal. Haverá uma brutal descida de turismo inglês e uma explosão do turismo «escocês».

Esperemos que a saúde económica não seja mais flagelada do que a saúde física dos portugueses.

15
Abr20

Por quem os sinos dobram

João Miguel Almeida

A crise do covid-19 obriga-nos a escolher entre a riqueza e a saúde? Há quem pense que sim. E até há quem argumente que se a prioridade do governo for a criação de riqueza e não a defesa da vida dos seus cidadãos a qualquer custo veremos como estamos perante um falso dilema, pois só morrem os que já não eram saudáveis.

É o que defende Paul Frijters aqui. Fazendo uma análise custo-benefício entre o confinamento decretado pelo Estado e uma pandemia sem travões, Frijters conclui que tem menos custos e é mais benéfico para a economia e a riqueza da maioria encarar a pandemia com uma atitude de «laisser-faire, laisser passer».

Não conheço o autor, mas se for um economista liberal habituado a considerar todas as intervenções do Estado como maléficas, trata-se de uma posição coerente.

No entanto, nem tudo o que é coerente é bom.

Mesmo de um ponto de vista estritamente económico a análise tem falhas. É errado pensar que, se não houver confinamento a economia não tem um impacto negativo. A economia precisa de trabalhadores, empreendedores, consumidores. Se uma quantidade apreciável destes morre, a economia encolhe. O autor parte do pressuposto de que este impacto é relativamente reduzido pois a maior parte das vítimas mortais seriam idosos reformados, portanto, a população inativa.

Este pressuposto é discutível. Em primeiro lugar, porque a pandemia também faz vítimas mortais entre trabalhadores ativos. Mas ainda que a pandemia incidisse principalmente sobre idosos reformados, na Europa uma boa parte dos idosos reformados têm um poder de compra superior a muitos jovens trabalhadores em início de vida e portanto uma pandemia que dizimasse os idosos estaria a destruir a economia pelo lado da procura.

Nas diversas elucubrações económico-filosóficas de Peter Frijters há uma que me parece particularmente reveladora. É quando ele dá grande importância ao facto de, sendo a média de expectativa de vida em Itália de 83 anos, se a média de idade das vítimas do covid-19 for de 80 anos, só se perdem os três anos finais da vida da maior parte das vítimas do covid-19. E esses três anos octogenários são uma fraca razão para dar cabo da economia decretando o confinamento.

Um dos vícios deste raciocínio é considerar cada potencial vítima do covid-19 apenas como um indivíduo, desprovido de relações sociais ou familiares.

Mais uma vez nada sei sobre o autor, mas esta «visão do mundo» pressupõe uma avaliação da economia como uma interação entre indivíduos desprovidos de relações familiares ou inter-geracionais.

Na realidade social de Itália, de Espanha e de Portugal, um homem de oitenta e três anos pode, durante os últimos três anos da sua vida, pagar a licenciatura de enfermagem a um neto, ou neta. E mais um enfermeiro, ou uma enfermeira, numa situação de pandemia, pode ter um significativo impacto social e económico.

A economia não é só feita por empresas e Estados. Os indivíduos são uma abstração. A realidade concreta são pessoas tecidas por relações sociais, familiares e económicas. E as pessoas tanto se podem mobilizar para proteger a saúde de todos num determinado momento, como se podem mobilizar para relançar a economia num momento posterior.

Para não derrapar para uma análise dicotómica, com laivos de xenofobia, entre culturas «do Sul» e do «Norte», ou «latinas» e «anglo-saxónicas», transcrevo uma meditação de John Donne, poeta inglês (1572-1631):

«Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.»

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