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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

06
Jun20

Os estragos sociais da covid-19

João Miguel Almeida

O senhor António (nome fictício) tem a quarta classe, vive com a mulher e a filha num bairro social e trabalha num talho.

A filha, de nove anos, no quarto ano, desde o início do confinamento que não sai de casa.

Num bairro social não há situações de meio termo – ou se faz a vida do bairro com todas as portas abertas ao vírus ou se fecham todas as portas.

Para o ano a criança devia entrar no quinto ano e sair da escola do bairro social. Este é um ano marcante. As aulas online exasperam a família. Os pais tentam ajudá-la e não conseguem. Têm ambos a quarta classe. Mesmo eu e a minha mulher, ambos doutorados, quando tentamos ajudar o nosso filho no terceiro ano somos surpreendidos por mudanças de classificação e de métodos. Mas conseguimos pesquisar e perceber como ajudá-lo.

A criança no bairro social tem de preencher Quiz e escreve as repostas todas certas, mas o sistema informático dá todas erradas porque ela introduziu em cada resposta uma palavra que não é reconhecida.

A covid-19 está a agravar todas as doenças sociais já existentes.

14
Abr20

Início do terceiro período, pais à beira de um ataque de nervos

João Miguel Almeida

Hoje começou oficialmente o terceiro período escolar do ano letivo. Começou também uma situação inédita para pais, alunos e professores – terem de lidar com um período letivo organizado em casa, de acordo com um plano traçado pelos professores.

Tenho um filho no primeiro ciclo e o início de aulas dele e dos seus colegas está a ser exasperante para quase todos, ou mesmo todos, para alguns desesperante, por vezes hilariante.

Uma primeira dificuldade, quando se trata de miúdos tão pequenos, com autonomia reduzida, é os pais, muitos deles em regime de teletrabalho, outros que têm de sair de casa, serem capazes de acompanhá-los.

Mas outras questões se colocam. Nomeadamente, as que dizem respeito à privacidade, direitos de imagem e cibersegurança em regime escolar online. Todos os perigos, em termos de riscos de segurança e de exposição da privacidade que alguns especialistas têm associado ao teletrabalho (ver aqui) existem também, por vezes de uma forma, mais insidiosa, para a «telescola».

 

Hoje tivemos de esclarecer algumas dúvidas sobre a necessidade de filmar e transmitir as imagens para mostrar a aprendizagem pelo nosso filho de algumas disciplinas que são performativas, como a educação física e a música. Temos de filmá-lo a fazer os exercícios físicos e a executar os exercícios musicais indicados pelos professores?

Um professor de educação física de crianças do primeiro ciclo sugeriu que, em casa, os alunos saltassem de cadeiras e sofás. Ou seja, que fizessem como exercício escolar aquilo que geralmente são proibidos de fazer em casa.

Para famílias com um filho na casa dos sete anos e outro mais novo, na casa dos três anos. Os casos são especialmente bicudos. Como impedir que, quando o filho mais velho está a cantar, o de três anos não se ponha a dar o ar da sua graça? Como dizer ao filho para dar saltos das cadeiras ou do sofá para executar exercícios de educação física e depois impedi-lo de fazer o mesmo em «tempo de recreio» ou impedir os mais novos de imitar os «exercícios físicos» do mais velho?

Algumas questões que começaram por nos atazanar o dia foram resolvidas com bom senso. Outras nem por isso. A capacidade de lidar com os problemas é muito desigual. Varia com o número e o tipo de filhos, a disponibilidade dos pais e o melhor ou pior senso dos professores.

E o pior é que os argumentos de que se deve mandar as crianças «abrir caminho» ao regresso à escola não me convencem. Porque as crianças pura e simplesmente não conseguem manter o distanciamento social; porque hoje muitas pessoas têm filhos tarde e não se pode generalizar que os pais de crianças no primeiro ciclo estejam na casa dos vinte e trinta anos; porque os pais têm de trabalhar fora e são os avós que muitas vezes cuidam das crianças em casa.

Talvez fosse possível pensar numa solução diferenciada em que algumas crianças continuavam a estudar em casa, com faltas justificadas, e outras regressavam à escola. Pelo menos, assim, haveria uma redução do número de crianças nas escolas. E talvez esta diferenciação, paradoxalmente, resolvesse algumas desigualdades, pois há crianças que ficam em grande desvantagem se têm de estudar em casa.

Mas não seria fácil para as crianças que continuassem em casa.

Não creio que a escola em «tempos de covid-19» vá ser fácil para ninguém.

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