Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

21
Abr20

Luz no fundo de um túnel

João Miguel Almeida

Hoje, pela primeira vez em Portugal, o número de recuperados foi superior ao número de mortos por covid-19: são 917 recuperados e 762 mortos.

O número de mortos em Portugal tem sido relativamente baixo, o que parece dar razão aos críticos do confinamento e do espetáculo mediático montado em torno da pandemia. Mas o número de recuperados permanecia em níveis ínfimos. Um estudo recente mostra que o vírus SARS-CoV-2 se encontra em permanente mutação e é mais letal na Europa (ver aqui).

 

A lenta evolução dos recuperados em Portugal dá-nos uma imagem da incerteza que tem estado associada a esta pandemia e, face aos resultados mais recentes, razões concretas para ter esperança.

No campo económico verifica-se o inverso: uma catadupa de números inquietantes, quer em Portugal, quer a nível internacional. Mas já tivemos tempo para perceber as crises e recessões do passado, o que falhou e o preço que pagámos pelos erros cometidos.

A Grécia está a escapar a uma pandemia do covid-19 de dimensões brutais, mas escapará a uma repetição da tragédia económica?

O SARS CoV-2 está a expor as nossas vulnerabilidades e também mostrará quem possui capacidade para enfrentar uma crise desta dimensão.

27
Mar20

A pandemia e os espectros europeus

João Miguel Almeida

Há palavras que contagiam tanto ou mais do que vírus. São exemplos destas palavras as que o ministro holandês Wopke Hoekstra terá proferido numa reunião por videoconferência do Conselho Europeu na qual o governo espanhol declarou que não tinha margem orçamental para lidar com a crise do covid-19. Para o ministro holandês, a reação adequada da Comissão Europeia a estas declarações seria investigar o governo espanhol. O adjetivo «repugnante», com que António Costa classificou as declarações de Wopke Hoekstra, propagou-se também a alta velocidade. Outro vírus? Creio que o adjetivo de António Costa foi um anti-corpo necessário.

A irracionalidade de Bolsonaro ou de Donald Trump não são piores do que o moralismo aparentemente racional do ministro holandês. Trata-se, literalmente, de culpabilizar a vítima ou, no mínimo, de suspeitar da vítima. O governo espanhol tem errado, mas nenhum desses erros introduziu o covid-19 em Espanha. Mesmo se fosse esse o caso, o povo espanhol não pode servir de bode expiatório de políticas ineficazes, nenhum povo pode sê-lo.

A desconfiança do ministro holandês evoca espectros não muito longínquos do desnorte europeu durante a crise de 2008 e anos subsequentes. Nessa altura circulou, a partir do Norte europeu, a palavra PIGS para designar países como Portugal, a Itália, a Grécia e a Espanha, a braços com a crise das dívidas soberanas, explicadas de modo expedito por um ministro das Finanças holandês com o gosto dos povos do Sul por copos e mulheres.

Evoca ainda espectros mais longínquos, do período de entre duas Grandes Guerras, em que os povos europeus e de todo o mundo eram hierarquizados segundo critérios raciais ou civilizacionais, a xenofobia justificava políticas e legitimava um projeto de Europa que felizmente foi derrotado durante a II Grande Guerra.

Ensaiar a definição de uma política europeia de resposta à pandemia e a recessão que ela vai provocar com atitudes de arrogância de países que se veem como «moralmente mais puros» em relação a outros, além de xenófobo, é estúpido. O covid-19 não se deixa barrar por fronteiras, não escolhe as vítimas de acordo com critérios ideológicos ou morais. Se não nos unirmos para lhe resistir com inteligência, daremos ao covid-19 como aliados todos os demónios que no passado conduziram a Europa à autodestruição.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub