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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

17
Abr20

Uma crise na História de todas as pessoas que já viveram

João Miguel Almeida

Um dos livros que li nos tempos livres desta quarentena foi Uma Breve História de Todas as Pessoas que Já Viveram de Adam Rutherford. É uma narrativa da nossa História, os humanos, decifrada, nas linhas gerais, nos nossos genes. É claro que esta decifração não é possível sem juntar conhecimentos de biologia, História, arqueologia, geologia, etc. O autor, entronca nesta História genérica outras pequenas histórias, incluindo algumas histórias pessoais e do clube científico de que faz parte, os geneticistas.

Neste livro fui aprendendo algumas coisas, umas muito gerais, outras bastante concretas. Não me surpreendeu a ideia de que, do ponto de vista da genética, o racismo não faz qualquer sentido e que dois africanos negros têm mais diferenças entre eles do que aquelas que podem existir entre um branco e um negro. Também me pareceu que estava apenas a refrescar matéria já esquecida quando o autor refere que os europeus descendem de uma vaga migratória de Homo Sapiens que abandonou a África Oriental há apenas cem mil anos. Mas não creio não ter pensado antes que, se as raças não existem, há milhares de anos coexistiam três tipos de humanos: Homo Sapiens, homens de Neandertal e homens Denisova. Quando os Homo Sapiens provenientes de África chegaram à Europa encontraram e misturaram-se geneticamente com os homens de Neandertal. Daí todos os brancos europeus, entre os quais me incluo, terem como antepassados remotos tanto homens de Neandertal como Homo Sapiens enquanto a maior parte dos negros africanos descendem apenas de Homo Sapiens – com a exceção daqueles que, algures no passado se cruzaram geneticamente com europeus.

Mais concretamente, o livro, escrito em 2016, refere duas pandemias que mudaram a História europeia: a Yersinia pestis que abalou o império romano, já no seu crepúsculo, em 541, e que terá morto 25 milhões de pessoas em todo o império, contribuindo, a prazo, para a sua destruição; e a peste negra, entre 1348 e 1450. Ambas as pandemias chegaram à Europa, vindas da China. Se é possível estabelecer atualmente conexões entre globalização, tecnologia, relações entre a humanidade e a natureza, e a crise do covid-19, essas conexões já existiam na Antiguidade e na Idade Média: não só a peste chegou pelas rotas comerciais entre a China e a Europa, como ela é explicada «por força da agricultura, do comércio e da prosperidade: onde há cereais, há ratazanas, e onde há ratazanas há pulgas» (p. 118).

Vendo a crise do covid-19 numa perspetiva de longa duração, o que há de novo nesta história é, apesar de tudo, melhor: a medicina avançou vertiginosamente; temos a ciência, que nem existia, no sentido próprio do termo, nesses tempos passados. Quanto às conceções éticas, não creio que tenham evoluído muito. E alguns poderosos continuam a recorrer a bodes expiatórios para manter o seu domínio.

Uma Breve História de Todas as Pessoas que já Viveram - Livro - WOOK

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