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Diário do Ano C-19

Diário do Ano C-19

30
Mai20

Argumentos contra ideias zombies

João Miguel Almeida

O último livro de Paul Krugman tem como título Arguing With Zombie Ideas. Publicado no início do ano, foi escrito antes da crise provocada pelo SARS CoV-2.

No entanto, as últimas entrevistas e artigos do economista norte-americano apontam no sentido de que a negação do problema da atual pandemia é mais uma «ideia zombie», uma ideia que devia estar morta mas insiste em andar por aí a fazer estragos.

Entre as ideias «zombies» atacadas com argumentos no livro estão as de que os impostos sobre os ricos têm efeitos nefastos e as da negação climática.

Sobre a atual crise da covid-19, ainda escreveu relativamente pouco, mas do que escreveu há duas ideias a reter (infelizmente em textos que não se encontram em acesso aberto na internet): a de que a de que a prioridade no combate à crise da covid-19 deve ser evitar que morram pessoas; e a de que, sendo esta crise um misto de recessão e de desastre natural, a intervenção estatal devia focar-se em ajudar as pessoas a manter um nível de consumo adequado (ver aqui). Ao focar as ajudas na preservação de níveis consumo, os Estados também ajudam, indiretamente, as empresas e a conservação de empregos.

Convém acrescentar que haveria toda a vantagem em que o consumo fosse dirigido para produtos ecologicamente sustentáveis. E que os Estados também podiam, numa situação destas, contribuir para reorientar alguns consumos para produtos com menor impacto ambiental.

 

04
Abr20

O risco da pandemia e o risco da recessão

João Miguel Almeida

Será que a pandemia do covid-19 é uma «alucinação coletiva», como defende um investigador suíço de saúde pública? (ver aqui

Mesmo admitindo o argumento de que o risco de uma pessoa saudável morrer de covid-19 é baixo e que as taxas de mortalidade se verificam em grupos de risco, em especial pessoas com mais de setenta anos, considero que, de um ponto de vista ético, proteger as pessoas dos grupos de risco é razão suficiente para adotar medidas de segurança, mesmo que sejam incómodas para toda a população.

É fácil criticar as políticas de confinamento de toda a população, apontando o exemplo da Coreia do Sul, de Singapura e de Hong Kong em que, em vez do confinamento total da população, destruidor da economia, se fizeram testes em massa e se isolaram apenas as pessoas com resultados positivos no teste do covid-19.

Nenhum país europeu, quando a crise do covid-19 começou, se encontrava em condições de realizar testes de covid-19 em massa. Boris Johnson louvou a esta solução, mas o Reino Unido também não estava preparado e os resultados foram desastrosos.

Considerando os meios que dispunha, o confinamento de toda a população, foi a melhor das soluções possíveis para o poder político. Quem adotou esta medida mais cedo, como Portugal, tem obtido melhores resultados. É discutível se a fórmula do «estado de emergência» é a melhor, se não foi adotada de um modo demasiado abrupto, mas essa avaliação está a ser feita e discutida todos os quinze dias.

Sendo este o ponto da situação, podemos interrogar-nos se, para proteger a economia, não será melhor terminar o estado de emergência (ou outra fórmula qualquer de confinamento), o mais depressa possível. Um estudo realizado por economistas e que podem ler aqui defende a tese oposta. O confinamento por um período curto não provoca uma recessão tão profunda a curto prazo, mas atrasa a recuperação a longo prazo. Em vez de isolar apenas os infetados com covid-19, os autores do estudo defendem uma solução contrária: manter o confinamento total da população e ir dando liberdade de circulação aos que já tiveram o covid-19 e recuperaram.

Quantas mais pessoas se salvarem durante a crise do covid-19 melhor será para a economia. Até porque não é possível separar a economia das pessoas. O que é bom para a economia, como o que é bom para a saúde pública, é bom para todos nós.

24
Mar20

O estado de emergência em Portugal é justificado?

João Miguel Almeida

A decisão de decretar o estado de emergência em Portugal está a ter um custo pesado – económico, social, psicológico. Só um ganho importante, ou a prevenção de um desastre, pode justificar a adoção e o cumprimento do estado de emergência. Para qualquer pessoa dotada de um mínimo de racionalidade é óbvio que se o estado de emergência evita em Portugal a situação que atualmente se está a viver em Itália é completamente justificável. A questão é a seguinte: é possível estabelecer uma relação de causa-efeito entre o estado de emergência em Portugal e a exclusão de um cenário dantesco como é o de Itália nos dias de hoje? Esta questão relaciona-se com outra: Itália é um exemplo do que pode (ou vai) acontecer noutros países, ou pelo menos em alguns dos outros países, ou é uma exceção?

É possível argumentar que Itália é um exemplo do que pode acontecer em Portugal e explicar por que é que o cenário italiano é mais provável em Portugal do que noutros países: tanto Itália como Portugal têm uma estrutura etária semelhante – vinte e pouco por cento da população com mais de 65 anos – e as pessoas com mais de setenta anos são, consensualmente, um grupo de risco. Além disso, tanto Itália como Portugal têm culturas familiares em que é habitual o convívio entre diferentes gerações e os avós costumam ter uma relação de grande proximidade com os netos. No entanto, a Alemanha também possui uma percentagem elevada de população idosa e está a resistiu muito melhor à pandemia.

Mas também é possível apresentar diferenças entre Itália e Portugal:

Em primeiro lugar, Itália foi um dos primeiros países a ser infetado e a pandemia chegou mais tarde a Portugal. O covid-19 teve mais de um mês para se espalhar sem que as autoridades italianas tomassem qualquer medida de prevenção. Portugal, como a Alemanha, começou a agir quando a pandemia ainda estava no início.

Em segundo lugar, por muito que seja habitual meter italianos e portugueses no mesmo saco dos «países latinos» e «países do Sul», a verdade é que há diferenças culturais entre ambas as sociedades. Apesar de haver muitas Itálias dentro de Itália e de também haver diversidade na sociedade portuguesa, os italianos tendem a ser mais físicos, a ter uma sociabilidade mais intensa, pesa-lhes mais a norma do «distanciamento social». Uma significativa parte da população portuguesa acata facilmente as diretrizes da autoridade pública quando a sua segurança está em causa. Também aqui temos algumas semelhanças com os alemães.

Em terceiro lugar, a organização da informação acerca da saúde pública é diferente em Portugal em Itália – nacional no primeiro país, regional no segundo. O facto de Portugal ser um país mais centralizado facilita a coordenação no combate à pandemia a nível nacional.

Tenho ouvido falar de outras diferenças mas, dado se tratarem de hipótese não confirmadas por qualquer tipo de conhecimento científico ou empírico, não as incluo aqui.

Contra a ideia de que o estado de emergência é justificável é possível afirmar: a relação de causa efeito entre o estado de emergência e evitar uma situação como a de Itália é incerta; o efeito negativo do estado de emergência na economia, na sociedade e na psicologia é certo. O simples estado de calamidade podia prevenir também o que é possível prevenir e ter um menor impacto económico, social e económico.

Sabemos muito pouco sobre o que é o covid-19 e o que pode fazer-nos. A sabedoria popular portuguesa diz-nos que «mais vale prevenir do que remediar». Também nos diz que os doentes podem morrer não da doença mas da cura. Neste caso, quem não morrer do covid-19 pode ser esmagado por uma recessão económica.

Neste contexto de incerteza, é melhor tomar uma decisão discutível e justificada do que não decidir nada. Mas a seguir a esta decisão é necessário tomar muitas outras decisões, discuti-las e justifica-las, porque os espectros associados ao covid-19 não nos vão deixar tão cedo.

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